quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A trave e o argueiro


Os anos começam bem para uns e mal para outros. Ainda no tempo das cavernas, altura em que S. Gregório não tinha nascido, os homens e as mulheres não tinham a mesma noção de tempo do que nós, mas também teriam dias melhores e dias piores. Com mais caça ou menos caça. Com melhores ou piores colheitas. Com vidas conjugais calmas ou agitadas. Com mais guerrilhas ou menos guerrilhas pela posse das terras e de alguma gruta assim tipo T5.  Nada mudou, apesar de tudo. Esses tempos eram, também eles, injustos.
2017 é agora mais um momento (breve, muito breve) que se quer sempre renovado, melhorado e, sobretudo, justo. Mas sabemos que não é assim. A vida, desde o tal tempo dos nossos pré-históricos avós, continua a não ser sempre justa e nem sempre temos aquilo que merecemos. No entanto, “navegar é preciso”, como dizia o poeta, e todos, quer tenham fé num Deus, em vários, em nenhum ou apenas em si próprios, têm o direito a uma vida digna e sem sobressaltos. Para isso, basta, às vezes e apenas, que o outro seja respeitado nas suas opções, nas suas diferenças, nas suas limitações ou nas suas capacidades. A nossa maior limitação é, de facto, não vermos como todos, de uma forma ou de outra, somos, tantas vezes, tão limitados.
Citando um autor famoso chamado Mateus, São Mateus, que eu leio de vez em quando, “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.” (7:5)

Bom Ano Novo.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Janeiro de 2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Sejamos Sábios



           É o tema do momento. Incontornável e motivo de comentários, favoráveis na sua grande maioria, que demonstram que ainda existe em nós o velho bairrismo que parecia estar a desvanecer-se aos poucos. Montemor, que eu escolhi para palco das minhas histórias em livro, mas com o nome de Vila Nova, já merecia ser o cenário de uma produção como “O Sábio”, a novela a passar presentemente na RTP1.
Embora sensível à função estética de qualquer obra de arte ou performativa, não terei conhecimentos suficientes para analisar a questão em termos técnicos ou artísticos, e não foram essas as questões que motivaram este texto. No entanto, não fiquei insensível nem ao genérico da novela, nem aos exteriores, centrados em magníficas imagens do Castelo, da Cidade e de outros pontos conhecidos (Barragem dos Minutos, Herdade da Comenda do Coelho, Cromeleque dos Almendres) que nos deixam sempre com um aperto na garganta.
Mas não é esse o maior gozo de todos: o maior gozo de todos é quando ouço as personagens a falarem de Montemor como se fossem mesmo de cá, como se estivessem, tal como nós, profundamente apaixonados (ou não) por todos os encantos desta terra. É, muitas vezes, esta magia que a literatura e o cinema têm que é o de poderem misturar a realidade com a ficção, ficando nós, quantas vezes, sem sabermos onde começa uma e acaba a outra. E, na nossa imaginação, sempre a mil, ainda pensamos ser possível darmos de caras com o recém-regressado Pedro Homem, com o bondoso Tio Jacinto, a Sofia, confusa e à procura do seu rumo, ou o Raúl e a Cremilde da sede dos pescadores.

Então, há que aproveitar esta oportunidade, única e sem precedentes, de termos Montemor-o-Novo a ser visto quase diariamente no mundo inteiro. Torna-se urgente tirar partido da força e do poder da televisão e, agarrados a esta obra de ficção, procurar atrair gente à cidade e ao concelho, porque precisamos de mais movimento, de mais gente, de mais turistas, de mais habitantes, de mais capital, de mais compras e de mais vendas.
Por isso, quero ter a certeza de que, muito em breve, o executivo camarário vai iniciar (se não o fez já) uma série de acções estratégicas, concertadas não só com as agências de viagens, companhias turísticas, marcas de produtos e serviços, entre outros eventuais interessados, mas também, e sobretudo, com empresas, restaurantes, pastelarias, hotéis, pensões, associações culturais e desportivas da cidade e do concelho. Podemos deixar de ser um local de passagem para nos transformarmos num espaço que, dado a conhecer pela caixa mágica, se transformará num polo atractivo, com muita gente a querer passar por cá e visitar as maravilhas que nós cá temos e que tantos e tantos desconhecem. E quem vem demora-se, come, dorme, faz compras. E pode até decidir cá viver. Não podemos ter medo de quem nos pode dar a mão em termos económicos e humanos. Não podemos fechar Montemor ao mundo. Aproveitemos a oportunidade. É agora ou nunca.
Obrigado RTP. Obrigado Câmara Municipal. Obrigado Rui Chapa. Sem ti, o protagonista teria morrido e a novela não teria qualquer sentido.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Janeiro de 2017

Distraídos crónicos...

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