terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Celebrações II




Cada um de nós vai tendo, com o decorrer dos anos, dias certos de celebração ou de saudade. Cada um saberá dos seus e conhecerá a melhor forma de invocar memórias e de elevar um pouco mais o pensamento em direcção a um espaço que não se descreve e que se situa exactamente dentro de nós. Recordar amores passados, com um sorriso nostálgico mas não saudosista; pensar nos que partiram antes de nós, gravando no nosso ADN o Dia e a Hora da despedida; recuperar, com sofreguidão, os verões da nossa juventude, onde tudo era simples, claro e natural; recuar até à infância, lugar eterno onde os nossos pais nunca envelheciam e os nossos avós ficavam cristalizados nas nossas carícias e nos nossos abraços.
Acreditar, enfim, que as celebrações mais importantes não são as que dão lucro ou as que nos permitem ostentar materialmente o nosso poder perante o nosso semelhante. E há tantas, a maioria “decretadas” pelo Estado ou pela(s) Igreja(s)… Contudo, as intocáveis, as incorruptíveis, as mais sagradas são as nossas, as que não partilhamos abertamente porque impossíveis de exibir, as que nos permitem ficar, recatadamente, um pouco mais próximos do verdadeiro sentido da existência. Porque todos temos um passado. E porque ninguém é uma ilha.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Fevereiro de 2017

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