quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Ainda a Sogra, querida e eterna




Deixei num dos meus espaços das redes sociais um agradecimento a todos os amigos que nos abraçaram, directa ou indirectamente, pelo falecimento da nossa Mãe, Sogra e Avó, Nita Casadinho, e aproveito também este espaço de liberdade, que me foi oferecido pelo meu amigo Padre Manuel Vieira, vai para uma quinzena de anos, para reescrever o texto que por lá vai ficar mas que se colará para sempre na garganta e no coração de quem sabe amar e respeitar os conceitos e as práticas da família, do respeito e da amizade. É provável que, neste texto que agora inicio, haja uns acrescentos, porque quando escrevemos num dia nunca somos os mesmos quando o fazemos uns dias depois...
As nossas Mães, quando partem, nunca chegam a partir. Há-de haver sempre uma ligação que permanece ao longo de todos os tempos até ao último segundo das nossas vidas. Nascemos delas, estivemos com elas mais tempo, fomos delas mais horas, mais dias, mais meses. Somos sempre os seus meninos, porque, para os nossos Pais, a partir dos 10 anos, já teremos de ser uns homenzinhos... Pois, a nossa Mãe, Sogra, Avó e Amiga despediu-se no Sábado, com a família à sua volta, e todos sentimos, muito secretamente, que o fim estava próximo. E vocês sabem o que isso é: sentir que já não há solução e que nos resta enganarmo-nos a nós próprios e enganar os outros que estão connosco, à espera do suspiro final.

Sentimos que a nossa Mãe Nita, com uma vida cheia de filhos e netos (e uma bisneta quase a nascer) ia partir com alegrias no coração e com mágoas que nunca mais ninguém poderia curar. Mas a nossa Mãe ficou, sobretudo, a saber que o amor que por ela sentimos, e continuaremos a sentir, é maior do que qualquer mágoa, é mais forte do que qualquer dos vendavais que lhe sobressaltaram os dias, mais terno do que todas as nuvens de algodão em tempo de Verão e de dias de Sol brilhante.
Ela foi, nos últimos meses, depois da partida de todos os outros nossos Pais, o nosso ponto de referência, a nossa “matriarca”, a nossa “chefe”, o nosso único Sol e o Sol dos filhos e dos netos que nunca deixaram de a amar, que nunca a abandonaram, dos amigos dos seus netos que lhe chamavam também avó Nita e também da vizinha Maria, uma irmã, uma enfermeira, uma amiga para quem não temos palavras suficientemente fortes que expressem o agradecimento que ela merece. A nossa vizinha Maria, e eu sei que ela acredita nesse destino, tem o Céu à sua espera.
Por outro lado, a Nita sabe que, enquanto o último de nós por cá andar, o seu nome, a sua memória e a memória do seu querido Valério continuarão vivos e eternos na história da nossa família e nas histórias de todos os amigos, e foram muitos, mas muitos, a quem eles fizeram bem. E vão todos eles, os quatro e o avô Tony, a continuar nos nossos almoços de família e a serem recordados com saudade nos seus aniversários e nos aniversários de todos nós.

Há, no entanto, algumas pessoas que, pela sua formação, continuam a preferir criar abismos em vez de pontes, escavar valas profundas e quase intransponíveis em vez de estradas direitas onde todos pudéssemos caminhar lado a lado, com as nossas diferenças, mas com os pontos comuns que ainda nos ligam. Todos nós vivemos este tipo de experiências, porque não há famílias perfeitas. Todos sentimos que o Mal e o Bem residem mesmo ao lado um do outro mas que, como forças eternamente antagónicas e irreconciliáveis, afastam qualquer possibilidade de diálogo e atiram para cada vez mais longe a solução do que poderia ser solucionável.

Ninguém foge ao que a vida lhes vai, aos poucos, preparando. Melhor: todos se deitarão na cama que fizerem e só a eles lhes poderá ser pedida a responsabilidade dos seus actos. Os santos estão nos altares e alguns, provavelmente, com uma boa parte da sua santidade aberta à discussão, mas nós, os humanos, nós não somos santos. Por isso, desconheço as minhas penalizações e as minhas recompensas quando um dia, como a Nita, partir para sempre. Não sei quem irei encontrar no outro lado da vida, nem estou muito interessado, por agora. Sei, no entanto, que o poeta, já preocupado com as atitudes, tantas vezes incompreensíveis dos mais velhos, desabafou numa frase, aparentemente inocente:

“Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…”

Não há bons nem maus nesta vida. Há gente que vive de acordo com as circunstâncias, lidando com a própria dor, com a incapacidade intelectual de procurar soluções para o bem estar dos que lhes estão mais próximos, ao mesmo tempo que fomentam a divisão e a violência, gozando, aparentemente felizes, do alto da sua importância o sofrimento que vão causando. Como dizia tantas vezes a minha Mãe, saudosa e muito amiga da sua comadre Nita: “Há mais marés que marinheiros e, acredite, comadre, este género de pessoas, se não lhes dão a mão, acabarão sozinhas, desprezadas e inúteis para sempre.”

Hoje, o Valério e a Nita já se reencontraram. Queremos acreditar assim, para que tudo se torne menos doloroso e mais pacífico. Por isso, acreditamos que já se encontraram, já se beijaram e já deram as mãos para todo o sempre. E cremos que as dores, todas as dores, ficaram por cá, para que sejamos nós, agora, a suportá-las por eles, depois do seu merecido descanso.
Acreditamos também que o tempo tudo cura, tudo muda, tudo mata, tudo leva e tudo recupera.

Feliz Natal a todos os que leram este texto, a todos os que não o leram e a todos os que fingiram que não o leram.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Dezembro de 2016


Distraídos crónicos...

Contador de visitas

Contador de visitas
Hospedagem gratis Hospedagem gratis

Arquivo do blogue

Acerca de mim

A minha foto
Montemor-o-Novo, Alto Alentejo, Portugal