segunda-feira, 21 de março de 2016

Marcelo, o chef


O cozinheiro Marcelo vai, até ver, contentando a maioria. Consegue, como um bom chef, gerir os ingredientes que tem à disposição para, desta forma, poder confeccionar os pratos que vão satisfazendo os apetites mais exigentes, ou quase. Nem sempre os grandes chefs agradam a todos os comensais. Nem todos podem ganhar uma estrela Michelin. Mas Marcelo pode. É simpático, culto, tolerante, preocupado com as causas sociais, acutilante nas críticas à esquerda e à direita, mostrando, desde logo, capacidades de discernimento bastante superiores às do anterior Presidente que, na minha humilde e mais do que badalada opinião, já devia muitos meses aos chinelos de quarto e ao conforto descomprometido da sua casinha das duas (polémicas) marquises da Travessa do Possolo,13, 1350-252, Lisboa.
Marcelo tem nome de um governante que quase foi seu padrinho de baptismo, e Rebelo de Sousa são apelidos de outro governante, seu pai, Ministro das Colónias na era marcelista, quando ainda não se falava em liberdade, embora a vontade fosse muita. Ao contrário do que muitos da velha guarda esquerdista militante advogam, estes atributos não fazem dele, nem um defensor do Estado Novo, nem um representante da velha política. O actual Presidente da República mostrou, quer se goste, quer não, que é um aglutinador de ideias, um fazedor de consensos e um homem mais de esquerda do que muitos esquerdistas que se andam por aí a abanar pelas televisões, isto se é que ainda se pode falar em esquerda e direita em Portugal. Deixem-me abrir um parênteses para acrescentar que este tema nem necessitaria de muitas teses longas e chatinhas para se poder concluir que o espectro político actual tem mais a ver com birras e ódios antigos do que com a verdadeira essência da política pela qual nos devíamos governar. (Como estamos longe dos princípios dos gregos clássicos!)
Enfim, passemos à frente.
Marcelo Rebelo de Sousa é um one-man-show. Mas um homem-espectáculo no bom sentido da palavra. Ele começou por dar que falar quando nadou no Tejo e conduziu um taxi, na candidatura à Câmara de Lisboa, já lá vão um par de anos. Ele deu espectáculo nas televisões, enquanto comentador, zurzindo à esquerda e à direita, e, agora, enquanto mais alto magistrado da nação, continuou igual a ele próprio e o povo gosta assim, porque foi neste Marcelo que a maioria dos portugueses votou. Por isso, tinha de dar espectáculo no(s) dia(s) da tomada de posse. Sem medo de opiniões miserabilistas, consciente da sua vontade e sabedor da sua originalidade. Marcelo foi um bocadinho americano, no bom sentido, um bocadinho britânico, no bom sentido, um bocadinho nórdico, no bom sentido. Mostrou-se um cidadão do mundo, se querem saber mais. Um cidadão-político a celebrar a vitória com quem o elegeu.
Quem me conhece e me lê sabe que, pela minha formação e exemplos recebidos, não sou um homem de direita. E também sabe que eu sei que nem tudo o que a esquerda diz, escreve ou manda tem lógica e futuro. Nesta linha de pensamento, entra Marcelo, social-democrata, cristão, logo com tendência para a defesa dos mais necessitados, e um livre-pensador. Exactamente: um espírito livre. Diz o que pensa, escreve o que diz, faz o que escreve. Não sei quanto tempo vai durar este estado de graça. Mas acredito que o seu carisma, o seu savoir-faire não se vai esgotar assim que se varrerem os confettis e se arrumar o salão de baile. Que os deuses o conservem assim. António Costa pode vir a precisar, e muito, dele e do seu bom senso. E acreditem que vai ser para breve.


In "O Montemorense", Março de 2016 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Cozinhar



Cozinhar faz bem à saúde e liberta-nos o espírito. Pegar nos tachos e nas panelas, na garrafinha de azeite, na cebola e nos alhos, nos coentros e na salsa e é o que basta para nos sentirmos uns alquimistas à procura da Pedra Filosofal. É um prazer imenso quando a casa se inunda dos aromas que nós produzimos a partir do nosso velho fogão, foco de luz do nosso reino improvisado, onde tentamos reproduzir ao pormenor as receitas que as nossas avós passaram às nossas mães e que continuam vivas nos pratos que levamos para as nossas mesas, aguardando, quantas vezes temerosos, a crítica sempre honesta da família. Transformar o cru em algo comestível, seja carne, peixe ou legumes é uma arte que só quem experimenta sabe, de facto, valorizar.
Para mim, cozinhar aos Domingos de manhã é também perpetuar a visita habitual da minha Mãe. É imaginar-me com ela, sentada no seu banco preferido, no seu fato preto de viúva, a escutar-lhe as palavras sábias (sempre sábias) sobre o tempo e o modo como preparar cada ingrediente, como aromatizar cada molho, como, enfim, arrumar tudo na panela, aberta e disponível, transformando em lume brando um Caos aparentemente sem solução numa Ordem Sagrada onde tudo, com tempo e amor, acabava por encontrar uma deliciosa solução.

E o maior elogio que já recebi não foram os habituais e previsíveis “Que delícia!“Tens muito jeito!” “Mas que sabor requintado!” Não. O maior elogio que já recebi foi simples, e, como todas as coisas simples, tocante e mágico: “Sabes, Pai, estas migas com carne de porco sabem mesmo às migas da avó Rosa”. 

In "O Montemorense", Março de 2016

Distraídos crónicos...

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