terça-feira, 15 de novembro de 2016

Trumpstein




O povo americano já não nos pode surpreender mais. Quem deixa de torturar e matar negros para os transformar em presidentes da sua grande nação pode, muito bem e sem qualquer justificação, agarrar num indivíduo carregado de defeitos e sentá-lo na Sala Oval, porque o acha merecedor de tal distinção e responsabilidade.
A linha que a sociedade nos manda traçar para dividirmos o Bem do Mal, anulando assim, inequivocamente, a possibilidade de ambos se misturarem, nunca foi clara na sociedade americana. A sua literatura, ainda que herdeira de fortes influências europeias, mostra-nos, e aqui sim, claramente, que o espaço americano, pela sua amplitude e diversidade, pode permitir tanto a um habitante de Nova Inglaterra ou de Massachusetts, com um passado histórico de caça às bruxas (literalmente), como a um cidadão, distante e isolado, dos estados do Nebrasca ou do Arcansas, de espírito livre e mais ligado à natureza, mas não impeditivo de atitudes-limite, a vivência de duplicidades que só se tornam compreensíveis se as entendermos à luz de comportamentos borderline, comummente generalizados como esquizofrénicos ou bipolares.
Donald Trump lembra-nos precisamente algumas personagens com estes atributos, saídas de romances de Bret Easton Ellis – vítimas de um novo-riquismo que lhes permite os excessos e que, ao mesmo tempo, as atira para um espaço onde a mitomania (a capacidade de acreditar nas suas próprias mentiras e nos seus projectos megalómanos) as torna ainda mais assustadoras aos olhos dos outros – ou de Edgar Allan Poe, onde a luta constante com a sua própria consciência as transforma em seres alienados e capazes de qualquer loucura contra eles próprios ou contra os outros.
O novo presidente da nação mais poderosa do mundo, diz-se, apresentou-se como um indivíduo contra o status quo. Contudo, e paradoxalmente, as suas atitudes, palavras e maquinações acabam por roçar o ridículo pela incredulidade que provocam nos que o escutam. Por outro lado, esses terríveis planos de Trump levam-nos a pensar que é urgente que um qualquer super-herói esteja alerta, na tradição dos mais competentes vigilantes da Marvel, pronto para entrar em acção, de modo a impedir a concretização de tais ideias. Estas parecem vindas de um verdadeiro ditador dos tempos da Segunda Grande Guerra ou de um general alucinado, que tenha passado a maior parte da vida escondido, na clandestinidade, com os seus guerrilheiros numa floresta esconsa da América do Sul.
Se Trump leu Ellis, Poe ou mesmo Hawthorne, terá decerto encontrado traços comuns entre si próprio e as conflituosas e sofredoras personagens destes génios americanos. No entanto, se o novo chefe do mundo se atrever a ler um certo e muito célebre romance da literatura gótica inglesa, poderá concluir que ele próprio, no calor dos seus discursos e nas contradições constantes da sua vida, poderá não passar de uma criatura construída por si próprio e pelos media, com pedaços de vivências de si e de outros que o tornam num todo misto, grotesco e vivendo numa insuportável e angustiante ausência de paz.
Afinal, a Criatura de Victor Frankenstein só precisava de um pouco de compreensão e carinho. Tal como Mary Shelley, sua virtuosa e verdadeira criadora.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2016

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