quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Ainda a Sogra, querida e eterna




Deixei num dos meus espaços das redes sociais um agradecimento a todos os amigos que nos abraçaram, directa ou indirectamente, pelo falecimento da nossa Mãe, Sogra e Avó, Nita Casadinho, e aproveito também este espaço de liberdade, que me foi oferecido pelo meu amigo Padre Manuel Vieira, vai para uma quinzena de anos, para reescrever o texto que por lá vai ficar mas que se colará para sempre na garganta e no coração de quem sabe amar e respeitar os conceitos e as práticas da família, do respeito e da amizade. É provável que, neste texto que agora inicio, haja uns acrescentos, porque quando escrevemos num dia nunca somos os mesmos quando o fazemos uns dias depois...
As nossas Mães, quando partem, nunca chegam a partir. Há-de haver sempre uma ligação que permanece ao longo de todos os tempos até ao último segundo das nossas vidas. Nascemos delas, estivemos com elas mais tempo, fomos delas mais horas, mais dias, mais meses. Somos sempre os seus meninos, porque, para os nossos Pais, a partir dos 10 anos, já teremos de ser uns homenzinhos... Pois, a nossa Mãe, Sogra, Avó e Amiga despediu-se no Sábado, com a família à sua volta, e todos sentimos, muito secretamente, que o fim estava próximo. E vocês sabem o que isso é: sentir que já não há solução e que nos resta enganarmo-nos a nós próprios e enganar os outros que estão connosco, à espera do suspiro final.

Sentimos que a nossa Mãe Nita, com uma vida cheia de filhos e netos (e uma bisneta quase a nascer) ia partir com alegrias no coração e com mágoas que nunca mais ninguém poderia curar. Mas a nossa Mãe ficou, sobretudo, a saber que o amor que por ela sentimos, e continuaremos a sentir, é maior do que qualquer mágoa, é mais forte do que qualquer dos vendavais que lhe sobressaltaram os dias, mais terno do que todas as nuvens de algodão em tempo de Verão e de dias de Sol brilhante.
Ela foi, nos últimos meses, depois da partida de todos os outros nossos Pais, o nosso ponto de referência, a nossa “matriarca”, a nossa “chefe”, o nosso único Sol e o Sol dos filhos e dos netos que nunca deixaram de a amar, que nunca a abandonaram, dos amigos dos seus netos que lhe chamavam também avó Nita e também da vizinha Maria, uma irmã, uma enfermeira, uma amiga para quem não temos palavras suficientemente fortes que expressem o agradecimento que ela merece. A nossa vizinha Maria, e eu sei que ela acredita nesse destino, tem o Céu à sua espera.
Por outro lado, a Nita sabe que, enquanto o último de nós por cá andar, o seu nome, a sua memória e a memória do seu querido Valério continuarão vivos e eternos na história da nossa família e nas histórias de todos os amigos, e foram muitos, mas muitos, a quem eles fizeram bem. E vão todos eles, os quatro e o avô Tony, a continuar nos nossos almoços de família e a serem recordados com saudade nos seus aniversários e nos aniversários de todos nós.

Há, no entanto, algumas pessoas que, pela sua formação, continuam a preferir criar abismos em vez de pontes, escavar valas profundas e quase intransponíveis em vez de estradas direitas onde todos pudéssemos caminhar lado a lado, com as nossas diferenças, mas com os pontos comuns que ainda nos ligam. Todos nós vivemos este tipo de experiências, porque não há famílias perfeitas. Todos sentimos que o Mal e o Bem residem mesmo ao lado um do outro mas que, como forças eternamente antagónicas e irreconciliáveis, afastam qualquer possibilidade de diálogo e atiram para cada vez mais longe a solução do que poderia ser solucionável.

Ninguém foge ao que a vida lhes vai, aos poucos, preparando. Melhor: todos se deitarão na cama que fizerem e só a eles lhes poderá ser pedida a responsabilidade dos seus actos. Os santos estão nos altares e alguns, provavelmente, com uma boa parte da sua santidade aberta à discussão, mas nós, os humanos, nós não somos santos. Por isso, desconheço as minhas penalizações e as minhas recompensas quando um dia, como a Nita, partir para sempre. Não sei quem irei encontrar no outro lado da vida, nem estou muito interessado, por agora. Sei, no entanto, que o poeta, já preocupado com as atitudes, tantas vezes incompreensíveis dos mais velhos, desabafou numa frase, aparentemente inocente:

“Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…”

Não há bons nem maus nesta vida. Há gente que vive de acordo com as circunstâncias, lidando com a própria dor, com a incapacidade intelectual de procurar soluções para o bem estar dos que lhes estão mais próximos, ao mesmo tempo que fomentam a divisão e a violência, gozando, aparentemente felizes, do alto da sua importância o sofrimento que vão causando. Como dizia tantas vezes a minha Mãe, saudosa e muito amiga da sua comadre Nita: “Há mais marés que marinheiros e, acredite, comadre, este género de pessoas, se não lhes dão a mão, acabarão sozinhas, desprezadas e inúteis para sempre.”

Hoje, o Valério e a Nita já se reencontraram. Queremos acreditar assim, para que tudo se torne menos doloroso e mais pacífico. Por isso, acreditamos que já se encontraram, já se beijaram e já deram as mãos para todo o sempre. E cremos que as dores, todas as dores, ficaram por cá, para que sejamos nós, agora, a suportá-las por eles, depois do seu merecido descanso.
Acreditamos também que o tempo tudo cura, tudo muda, tudo mata, tudo leva e tudo recupera.

Feliz Natal a todos os que leram este texto, a todos os que não o leram e a todos os que fingiram que não o leram.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Dezembro de 2016


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Pose de Estado



Sim, ando pelo Facebook para escrever o que me parece que devo, para provocar discussões, para dar recados, para abraçar amigos e para despachar os que pensam que o são mas não o são. Mas isso sou eu, que não tenho qualquer responsabilidade política na minha cidade e no meu concelho. Porque se eu tivesse responsabilidade política na minha cidade e no meu concelho, não utilizava o Facebook para defender posições que, decerto, deveriam ser defendidas em sede própria, nem para divulgar questões de teor pessoal sobre a família e os amigos, provocando, tantas vezes, momentos de constrangimento a quem lê, muito menos para questionar adversários políticos sem que eles possam reagir num ambiente franco e transparente, como se pretende que sejam os ambientes de troca de ideias, ou até para acusar e defender a esmo pessoas e ideologias, sem medir as consequências políticas de tais desabafos. Se eu tivesse essas responsabilidades políticas, não usaria esse veículo como jornalinho pessoal, para espalhar intrigas, escarafunchar questiúnculas, reabrir feridas, espalhar desamores como se eu fosse um cidadão comum, iguais aos demais, sem responsabilidades políticas na minha cidade e no meu concelho.
Se há uma questão que alguns políticos da nossa cidade ainda não entenderam, após tantos anos de democracia e de governação livre, é a necessidade de uma atitude de estado. E parece-me que, com os exemplos dados todos os dias pelo actual Presidente da República, não é tão cedo que o vão entender.
À vontade não é à vontadinha e mais vale cair em graça do que ser engraçado, já me dizia o meu velho e saudoso Pai, sempre atento e amigo,


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2016

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Trumpstein




O povo americano já não nos pode surpreender mais. Quem deixa de torturar e matar negros para os transformar em presidentes da sua grande nação pode, muito bem e sem qualquer justificação, agarrar num indivíduo carregado de defeitos e sentá-lo na Sala Oval, porque o acha merecedor de tal distinção e responsabilidade.
A linha que a sociedade nos manda traçar para dividirmos o Bem do Mal, anulando assim, inequivocamente, a possibilidade de ambos se misturarem, nunca foi clara na sociedade americana. A sua literatura, ainda que herdeira de fortes influências europeias, mostra-nos, e aqui sim, claramente, que o espaço americano, pela sua amplitude e diversidade, pode permitir tanto a um habitante de Nova Inglaterra ou de Massachusetts, com um passado histórico de caça às bruxas (literalmente), como a um cidadão, distante e isolado, dos estados do Nebrasca ou do Arcansas, de espírito livre e mais ligado à natureza, mas não impeditivo de atitudes-limite, a vivência de duplicidades que só se tornam compreensíveis se as entendermos à luz de comportamentos borderline, comummente generalizados como esquizofrénicos ou bipolares.
Donald Trump lembra-nos precisamente algumas personagens com estes atributos, saídas de romances de Bret Easton Ellis – vítimas de um novo-riquismo que lhes permite os excessos e que, ao mesmo tempo, as atira para um espaço onde a mitomania (a capacidade de acreditar nas suas próprias mentiras e nos seus projectos megalómanos) as torna ainda mais assustadoras aos olhos dos outros – ou de Edgar Allan Poe, onde a luta constante com a sua própria consciência as transforma em seres alienados e capazes de qualquer loucura contra eles próprios ou contra os outros.
O novo presidente da nação mais poderosa do mundo, diz-se, apresentou-se como um indivíduo contra o status quo. Contudo, e paradoxalmente, as suas atitudes, palavras e maquinações acabam por roçar o ridículo pela incredulidade que provocam nos que o escutam. Por outro lado, esses terríveis planos de Trump levam-nos a pensar que é urgente que um qualquer super-herói esteja alerta, na tradição dos mais competentes vigilantes da Marvel, pronto para entrar em acção, de modo a impedir a concretização de tais ideias. Estas parecem vindas de um verdadeiro ditador dos tempos da Segunda Grande Guerra ou de um general alucinado, que tenha passado a maior parte da vida escondido, na clandestinidade, com os seus guerrilheiros numa floresta esconsa da América do Sul.
Se Trump leu Ellis, Poe ou mesmo Hawthorne, terá decerto encontrado traços comuns entre si próprio e as conflituosas e sofredoras personagens destes génios americanos. No entanto, se o novo chefe do mundo se atrever a ler um certo e muito célebre romance da literatura gótica inglesa, poderá concluir que ele próprio, no calor dos seus discursos e nas contradições constantes da sua vida, poderá não passar de uma criatura construída por si próprio e pelos media, com pedaços de vivências de si e de outros que o tornam num todo misto, grotesco e vivendo numa insuportável e angustiante ausência de paz.
Afinal, a Criatura de Victor Frankenstein só precisava de um pouco de compreensão e carinho. Tal como Mary Shelley, sua virtuosa e verdadeira criadora.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2016

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Estudantes Juniores




Os alunos não são todos iguais. Ainda que tenham a mesma idade, uma origem familiar comum ou vivam na mesma rua. Muito menos iguais são os de diferentes faixas etárias e, consequentemente, com interesses muito diversos. Por isso, um aluno com onze anos não pode ser tratado como se tivesse dezassete, nem vice-versa. Não resulta. Nem em termos académicos, nem em termos de afectividade e cumplicidade, tão necessárias em contexto de sala de aula. 
Nem sempre é fácil para um professor, mesmo com alguns anos de experiência, entender essas diferenças: ou por cansaço ou por insensibilidade ou por questões de feitio. Mas elas estão lá, de forma visível e à nossa espera todos os dias, no decorrer do ano lectivo. O entusiasmo que nos guia, bem como os objectivos essenciais da nossa prática lectiva é, quase sempre, cumprir o programa do ministério e dar as mesmas oportunidades, de forma igual e indiferenciada, a todos os alunos de uma mesma turma. Julgamos, assim, estarmos a dar visibilidade a um ensino justo e equitativo. Nada mais errado. Muito menos nos tempos que correm, com turmas onde existem alunos de diferentes raças e etnias, com origens familiares diversas e, tantas vezes, problemáticas. Para não desenvolver aqui a temática da inclusão, necessária, democrática e obrigatória para crianças com necessidades educativas especiais.

Porque todos somos diferentes e todos temos limitações da mais diferente espécie, espero que nunca ninguém, arrogando-se de pedagogo iluminado e epifânico, decida fazer-me um exame prático de futebol, de ballet ou mesmo de mandarim. Sem as devidas ajudas especializadas e personalizadas… é óbvio que vou reprovar em todas as provas e que serei considerado um aluno com sérias dificuldades de aprendizagem.


In "O Montemorense", Outubro, 2016

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Estudantes Seniores


Foto: Conceição Carneiro

Não se tem falado por aí além de um grupo que ultrapassou já as paredes onde germinou e que é hoje um fenómeno sócio-cultural com raízes e que não deixa ninguém indiferente. A Universidade Sénior do Grupo dos Amigos de Montemor, que teve início há mais de uma década com o nome de Estudos Gerais, é, nos dias que correm e no panorama cultural da cidade, muito mais do que a soma dos elementos que a formam.
Porque tenho lá muitos amigos, professores e alunos, sei da pureza dos seus objectivos e da riqueza das suas intenções. O partilhar de experiências de vida, a aprendizagem nos mais diversos campos do saber (História, Património, Literatura Portuguesa, Teatro, Música…) e o sentido que tudo isto continua a dar à existência de cada um deles substitui, de forma inteligente e prática, a velha ideia de que os mais velhos nada mais podem aprender e, pensamento ainda mais grave mas que continua a arrastar multidões, nada vale a pena depois de uma certa idade.
Não serve este pequeno apontamento para listar as dezenas de actividades em que a Universidade Sénior se envolve, cruzando os seus saberes com outras instituições da cidade e de outros pontos do país, mas há que destacar os elementos da Tuna que, ao dividirem em dois os seus afazeres, conseguem representar peças de teatro de alguma complexidade e cantar afinadamente, com graça e brilho, nos concerto em que participa.
Não sei de forma concreta, nem poderei saber, o que poderão sentir esses alunos/actores/cantores/músicos/construtores de instrumentos, quando fazem tão bem o que nos mostram. Mas calculo que, depois de cada aula, de cada concerto ou récita, se sentem mais felizes, cultural e socialmente mais úteis e motivo de orgulho para os amigos, filhos e netos que os aplaudem generosamente. Sim, depois de certa idade é tempo de sermos pais cada vez mais presentes, avós imprescindíveis, maridos e mulheres de uma vida. Porque os novos tempos isso exigem. Mas também é tempo de reviver, de recuperar, de renascer, de afastar o que nos preocupa, num processo contínuo e sem fim. E é isso, sobretudo isso, que faz correr Vítor Guita e os outros professores que com ele formam equipa, disponíveis, preocupados, conscientes, pedagogos q.b. e orgulhosos dos frutos da sua obra.
         Querem saber os motivos desta minha admiração por todos eles? Se não tivesse, porventura, chegado há muito tempo a essa conclusão, bastaria a extraordinária participação do grupo na mais recente encenação de Vítor Guita do “Novo Entremez”, de Curvo Semedo, para perceber que a vida das pessoas não termina com a aposentação. Muitas vezes, é aí que ela recomeça.
O importante, dizia alguém, não é a meta, é o caminho até lá… Neste caso concreto, acreditem, é tudo importante, sobretudo o Amor. Pelas Pessoas, pelo Saber, pela Arte.

In "O Montemorense", Outubro, 2016

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Eu tive um sonho



           

           Eu tive um sonho. Sonhei que a nossa História recente nos deixaria exemplos que não iriam ser repetidos. Sonhei que não haveria mais ditadores, tortura e assassinatos massivos de inocentes. Sonhei que seria impossível morrerem milhares de fugitivos nas águas do Mediterrâneo. Sonhei que o mesmo Homem que conquistou o Espaço seria capaz de curar o cancro e a Sida. Sonhei que, num futuro a que se chamaria a Era das Comunicações, as pessoas conhecessem os vizinhos da porta ao lado.
            Eu tive um sonho. Sonhei que, depois de décadas de miséria, exploração, obscurantismo, prisões e guerras em África, jamais voltaria a haver crianças com fome, bairros de lata, trabalhadores explorados, desempregados, presos injustamente, serviços secretos e guerras noutras áfricas. Sonhei que todas as crianças tivessem uma família que as amasse e respeitasse e que todas as famílias dessas crianças tivessem dinheiro para comprarem os livros escolares aos seus filhos e netos e que o Estado não fizesse letra morta do que está instituído – um ensino livre e gratuito para todos.
            Eu tive um sonho. Sonhei que, no meu país, todos os homens e mulheres seriam tratados de igual forma perante a lei e que todos teriam de responder pelos seus actos, independentemente das suas posses e influências.
            Eu tive um sonho. Sonhei que o meu país seria sempre conduzido por políticos responsáveis, sérios e dignos da confiança de todos nós e que a Justiça fosse uma segurança e não uma ameaça.
            Eu tive um sonho. Sonhei que, um dia, os campos à volta de Vila Nova, outrora cenários de sofrimento e exploração, se transformariam em espaços fecundos onde proprietários e trabalhadores unidos trabalhavam a terra e a tornavam próspera, livre e prenhe de vida. Sonhei que os comerciantes desta terra tivessem capacidade para viver com dignidade dos seus negócios, apesar da implantação das grandes superfícies comerciais e da fuga de clientes para o litoral.
            Eu tive um sonho. Sonhei que, um dia, todos os que procurassem emprego seriam aceites  de forma justa e isenta, independentemente da sua cor política, da origem familiar, da sua raça ou religião, ou mesmo do seu passado, e que o seu carácter e capacidade fossem bens inalienáveis e os primeiros requisitos a ter em linha de conta para o cumprimento das suas funções.
            Eu tive um sonho. Sonhei que um dia, os anos de eleições autárquicas não seriam apenas tempo para inaugurações apressadas, visitas às instituições de Vila Nova pelos vários partidos políticos, com promessas que nem sempre são cumpridas, e operações de charme com muitas fotos, sorrisos e abraços.       
            Sonhei que, um dia, os que governam Vila Nova e o concelho acabariam, aos poucos, por largar as cores dos seus partidos, de forma a servirem, completamente livres e em equipa, o povo que os elegeu, de modo a salvaguardarem o bem-estar e a felicidade de todos vilanovenses.  Sem sentirem as pressões dos compromissos partidários, das disciplinas de voto, dos segredos, das vaidades pessoais, dos preconceitos e dos golpes palacianos.
            Eu tive  um sonho. Sonhei que os meus filhos e todos os filhos da minha terra teriam a oportunidade de ter um futuro em Vila Nova, a terra que os viu nascer e crescer, com empregos estáveis e duradouros, para poderem fixar aqui a sua vida e a vida dos nossos netos. Sonhei, também, que seria possível atrair empresas, indústrias, investidores para esta terra de gente boa e estrategicamente localizada.
            Eu tive um sonho. Sonhei que um dia todos seríamos livres de expressar as nossas opiniões, independentemente da hora e do momento, sem pressões nem medos, nem constrangimentos de qualquer espécie. Sonhei, por fim, que as críticas construtivas seriam aceites de peito aberto e utilizadas para melhorar, dia após dia, a dedicação de todos nós ao bem público e a Vila Nova.

            O sonho de Martin Luther King continua por cumprir e ele pagou com a vida a sua ousadia. O meu continua vivo e cheio de esperança.
            Eu tive um sonho.
            Eu tenho um sonho.


In "O Montemorense", Setembro de 2016

quarta-feira, 20 de julho de 2016

"Contra os canhões marchar, marchar!"


Pronto, pronto, depois de uns dias de exagerada maluquice patriótica, regressámos muito mais animados à Terra, planeta demasiado pequeno para conter a euforia pela vitória da Selecção Portuguesa no Campeonato da Europa de Futebol. Não vale a pena repetir o que tanto se escreveu nas redes sociais e noutros media, antes e depois da vitória. Os descrentes, os más-línguas, os detractores acabaram por calar o bico, alinhando com os demais, desfraldando bandeiras, gargalhando e gritando felizes como se fossem donos do mundo.
Conclusão: somos um país unido, firme e crente e ainda com um certa mania que nos ficou do falecido Império. Mas só se os temas forem futebol, futebol ou futebol. Qualquer destes fenómenos, que eu respeito e acompanho sempre que possível, move multidões (e milhões de euros) arrancando do mais fundo de nós uma força sobre-humana para lutarmos... contra outras equipas de futebol ou para, como peregrinos nesta Terra mal frequentada, pedirmos às entidades divinas o que as terrenas se mostram incapazes de nos garantir. (Foi o que fez Fernando Santos.) Enfim, sempre foi assim e sempre assim será.
Para os políticos de passagem (estamos todos de passagem), esta coisa do futebol, da vitória contra a França e má-na-sê-quê foi ouro sobre azul, sendo a manobra de diversão mais a jeito que jamais poderia ter acontecido. Costa e Marcelo (mais uma vez), dançando ao som da alegria lusa de sermos campeões, pensaram enquanto cantavam desafinadamente o hino pela 124.ª vez: “Deixem lá que na Terça, dia 12, já vão ver como é.”
E foi. Os senhores da guerra financeira reuniram e decidiram aplicar sanções a Portugal e a Espanha. Como era de esperar. Vamos, novamente, sofrer na pele as dramáticas consequências do roubo que a alta finança nos fez durante anos, sem nunca termos dado por isso. Estamos quase a ser reesmifrados, rechupados, reassaltados e com a nossa pouca dignidade transformada em restos, triturados e lançados aos porcos. Sócrates já o tinha feito. Passos já o tinha feito. E, na senda da tradição (Portugal é um país de tradições), Costa não vai deixar quebrar a linha.
Mas o que é vermos os nossos salários cortados, o tempo de reforma a diminuir, os nossos trabalhadores a serem explorados, os professores a serem transformados aos poucos em empregados de escritório, os alunos a passarem sem saberem escrever uma linha sem erros, os jovens em desespero a emigrarem com um diploma na mão... o que é isso, e muito mais, comparado com a dor de Ronaldo em lágrimas, com a fé de Fernando Santos, com o pontapé certeiro de Éder? Com os emigrantes em bloco, em pulgas, adorando, idolatrando, sofrendo pelo onze maravilhoso? O que é isso comparado com as “guerras” medievais entre o azul/branco e o vermelho/verde, entre lusos e gauleses, afinal de contas tanto uns como outros a penarem os sete penados por causa do mesmo?
Não saltaste por causa do futebol? Saltei. Não dançaste, feliz com a vitória? Dancei. Não gritaste quando Éder meteu o golo? Gritei.
Mas em cada salto, em cada passo de dança, em cada grito estava também, ainda que disfarçada, a temerosa expectativa em relação ao futuro do meu país. E esse futuro não passa pelo futebol nem pela fé de Fernando Santos. Passa por nós, Lusitanos, que nos estamos, hoje e sempre, per omnia seculorum, a marimbar para o nosso bem estar, para a nossa qualidade de vida e para deixarmos aos vindouros um país a sério.
Agora que sossegámos, agora que o pó da euforia baixou, canalizemos as nossas energias para marcharmos “contra os canhões”, de modo a, de forma patriótica e consciente (e consciente!), enfrentarmos os que, continuamente, nos querem fazer mal. A nós, aos nossos filhos e aos nossos netos. Por isso, toca a “marchar, marchar!” e deixemo-nos de fantasias.
Graus de Comendador como eu todos os dias ao pequeno-almoço. E tenho ficado exactamente na mesma.


In "O Montemorense", Julho de 2016

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Sangria é o meu nome do meio (confessa a fofa)




Montemor vai entrar em modo de Verão. Bares e restaurantes já começaram a montar as esplanadas e já se fizeram as encomendas para as sardinhadas que aí vêm, regadas com boa sangria e com ainda melhor disposição. A fofa tornou-se ultimamente uma adepta fervorosa da sangria e já me prometeu um périplo pela cidade, assim numa espécie de prova científica que, tenho a certeza, vai acabar menos bem. Mas, depois de um ano de trabalho arrasador, ela bem merece umas distracções gastronómicas, pretexto para reencontrarmos amigos, trocarmos ideias sobre tudo e sobre nada e dar umas boas gargalhadas, tendo sempre por cenário a noite montemorense, momento ideal e imperdível para se tirarem as máscaras profissionais, sociais, políticas, académicas e burocráticas. Porque à noite não é necessário fazer teatro, porque tudo é mais fácil e porque as pessoas são mais simpáticas. Montemor vai, por isso, ter de arranjar entretenga para os montemorenses, e outros apaixonados pela nossa cidade, que decidam passar por cá os meses de Verão. Porque são estes que vão investir na economia local. E dinheiro gera dinheiro. E o dinheiro dá mesmo felicidade, por muito que alguns finjam acreditar no contrário.

In "O Montemorense", Junho de2016

terça-feira, 21 de junho de 2016

Marcelo & Costa, Inc.



Marcelo Rebelo de Sousa não poderia ter encontrado melhor momento para se lançar ainda com mais entusiasmo nos braços dos portugueses: a coincidência deste 10 de Junho com o início do Europeu em França. O saber aproveitar esta oportunidade só revela inteligência e uma enorme capacidade de antecipação. Por outro lado, Costa também não se distraiu. Este adora Marcelo porque pode, estando coladinho a ele, ganhar pontos e começar a ser visto, não como um primeiro-ministro que trocou as voltas à democracia (Costa não ganhou a maioria nas últimas legislativas, ainda supervisionadas por um Cavaco a cair de gasto), mas como uma alternativa às ditas políticas de direita e de centro-direita (se é que isso existe) levadas a cabo pelo anterior executivo.
Nos discursos do Dia de Portugal, no Terreiro do Paço, o Povo foi a tónica do Presidente da República. O Povo. Essa massa anónima que conquistou a liberdade para o país em muitos momentos difíceis da sua História, quantas vezes com o sacrifício da própria vida e sem o auxílio “das elites”.
Em Paris, nesse mesmo dia, foram elevados a heróis por Marcelo os que, fugindo da fome, da guerra do Ultramar ou do desemprego de um Portugal cinzento e parado nos anos 50 e 60, escolheram a França como segunda pátria onde refizeram a vida e deitaram semente.
Quando, em 1572, Camões elevou o povo português, glorificando a coragem e a determinação de todos quantos desbravavam mares e terras em nome de Deus e da Pátria, nunca imaginou que, quase seiscentos anos mais tarde, a obra épica mais famosa da nossa literatura, escrita por si, fosse reeditada numa versão pós-moderna mas, ainda assim, convincente e igualmente aplaudida. A condecoração dos soldados que combateram em África e das emigrantes que salvaram a vida a centenas de pessoas nos atentados de Paris, no passado mês de Novembro, foi a marca da diferença e a face visível dos discursos de Marcelo, tão distintas dos gestos “de regime” e das palavras mais do que mastigadas do seu antecessor.
Também hoje continuam a tentar fazer a vida “lá fora” milhares de portugueses, estes muito jovens e com formação académica superior, que, tal como os seus predecessores, não têm como sobreviver num país, agora menos cinzento mas com enormes problemas estruturais e de justiça social e que os expulsa depois de ter gasto com eles milhões de euros nas suas formações universitárias. Marcelo também deveria ter falado nisto.

Os gestos e as palavras em sintonia de Costa e Marcelo, neste momento de aparente viragem, ainda que possam vir a durar pouco, são fundamentais para que o país recupere a confiança que outros Governos lhe roubaram. Não sabemos quanto tempo vai durar esta valsa, elegante e romântica, olhos nos olhos e sorrisos abertos, mas enquanto durar é bem possível que a autoestima dos portugueses fique mais fortalecida e que, quando Passos Coelho quiser regressar, aqueles lhe saibam dizer com quantos paus de faz uma nau quinhentista.

In "O Montemorense", Junho de 2016

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Casal Michelin



Se este espaço fosse uma coluna de crítica gastronómica, escreveria aqui que o bar-restaurante da sede da Associação Columbófila Montemorense abriu em Janeiro com nova gerência. Sem desprestígio para outras casas do género, que muito prezo aqui na cidade, tenho um especial prazer em utilizar esta minha coluna de liberdade para divulgar um espaço onde o atendimento é feito de forma especial e os petiscos são para comer lentamente, saboreando cada tempero, cada acepipe, cada nuance que só com vagar se pode avaliar, gozando cada bom momento que eles nos proporcionam. Entramos como clientes e saímos como amigos. Porquê? Porque o António Quitério e a Isabel Conceição não conseguem fazê-lo de outro modo. E isso augura-lhes uns bons anos de... serviço público. Se dependesse de mim, e de outros companheiros de aventuras, de palato exigente, recebiam sem hesitações, e numa cerimónia pública protocolar a ter lugar na pequena mas funcional cozinha da Isabel, a sua primeira… Estrela Michelin!

In "O Montemorense", Maio de 2016  

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os dias do fim


Iniciámos há pouco a última etapa escolar. A menos de um mês do final do ano lectivo, tornam-se agora mais visíveis as preocupações dos alunos com o aproximar dos últimos dias. (É todos os anos assim, sem excepção.) Claro que essas preocupações são legítimas e têm razão de ser, mas a tensão e a angústia seriam menores se, muitos meses antes, o estatuto de estudante tivesse sido encarado como uma profissão mais séria e importante. Claro que não se deve confundir a árvore com a floresta e todos sabemos que há alunos (e pais) que se preocupam, desde o primeiro momento, com os resultados e com a necessária aquisição de conhecimentos para que aqueles possam ser os melhores possíveis. Outros há (e não são assim tão poucos) que começam agora a olhar para o calendário e que procuram fazer num mês o que não conseguiram em oito. Sorrio perante este exercício, quantas vezes inglório, mas que seria evitável se esse esforço tivesse sido distribuído no decorrer do ano lectivo. Contudo, por muito que os professores e os pais insistam nessa questão, muitos jovens vêem na escola apenas um pretexto para sair de casa, para passar umas horas a trocar mensagens, a jogar nos computadores da Biblioteca ou como mero centro de convívio de quem não tem mais nada para fazer. É pena. Porque Portugal vai continuar à espera da geração certa. E nós queremos que seja esta. Mas com uma atitude diferente. Antes que seja tarde.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Caravelas




(Foto: autor desconhecido)

E quando nada nem ninguém poderia prever, um breve dilúvio abateu-se sobre Montemor no dia 11 de Maio, abrindo uma ferida profunda numa das praças mais emblemáticas da cidade. O Jardim Público, elemento arquitectónico com largas décadas de existência, faz da Praça da República, juntamente com as sociedades Carlista e Pedrista, um conjunto perfeito com a arquitectura do prédio em frente, onde se situa o Café Almansor, cujos nome e história se confundem com o nome e a história do próprio largo, onde desaguam sete das ruas da nossa terra. Parte do muro do Jardim ruiu em consequência de um deslizamento de terras que forçou a antiga armação a cair para o lado da Rua de Olivença. Não houve registo de feridos, felizmente, embora um carro ali estacionado tivesse ficado danificado.
Ainda não li qualquer reacção por parte dos partidos da Oposição que, normalmente, e como é da praxe, procuram atribuir responsabilidades por este tipo de situações e que quase sempre apontam a Maioria como principal alvo das suas críticas. Desta vez, e à data deste escrito, ainda não o fizeram. Nem serei tão pouco eu a fazê-lo. Porque não sei como se pode evitar estas catástrofes e porque penso que os responsáveis autárquicos, maioria e oposição, já terão pensado em tornar efectiva uma vistoria rigorosa a todos os edifícios do centro histórico que se encontram em situação de iminente desmoronamento. A chuva, o sol, o vento e a poluição que têm vindo, ao longo de décadas, a conviver com os edifícios das décadas de 20, 30 e 40 do séc. XX, começam a fazer os seus efeitos erosivos, sobretudo em imóveis devolutos e cujos proprietários não se encontram financeiramente em condições de proceder aos necessários melhoramentos e, muito menos, a uma total reconstrução dos seus imóveis antigos.
Há vários anos que muitos montemorenses, quer verbalmente, quer por escrito nos jornais da terra, vêm a alertar para o estado de degradação de alguns dos edifícios da histórica “encosta do Castelo” e daqueles que circundam outro largo emblemático da cidade – o Largo General Humberto Delgado. Mais quatro ou cinco tempestades como a que destruiu o muro do Jardim bastarão para deitar abaixo alguns prédios do mítico largo onde se ergue o Monumento aos Combatentes da Primeira Guerra.
Se, aparentemente, houve algum desleixo com o estado do muro Jardim Público, que este acontecimento nefasto, que para nós, montemorenses, tem o valor de uma verdadeira tragédia patrimonial, sirva para alertar quem de direito, de modo a, urgentemente, evitar-se repetições. Montemor não pode ser visto como uma velha caravela, esventrada, abandonada ao sabor das intempéries, que, por falta dos contínuos e necessários cuidados de manutenção, deu à costa, mil tempestades depois, a gritar por socorro. Exigimos da autarquia uma maior vigilância e os meios necessários para prevenir estas situações que deixam na traça da cidade cicatrizes difíceis de sarar. Como? Não me compete a mim dizê-lo. E, já agora, que não apliquem as modernices habituais nas reconstruções do género. Queremos um muro exactamente igual ao que lá estava.

In "O Montemorense", Maio de 2016

terça-feira, 26 de abril de 2016

Se faz favor, onde fica o Centro de Saúde?



Temos em Montemor-o-Novo um novo Centro de Saúde. Pelo que me é dado a perceber, as novas instalações, situadas nas traseiras do Hospital de São de Deus, têm as condições necessárias e suficientes para dar assistência aos que necessitam dos seus cuidados. Nós, que somos de cá, sabemos o caminho até àquele novo equipamento de saúde. E os de fora? Onde é que está a sinalética adequada que lhes indique o caminho certo e mais curto para lá? Já aconteceu alguns veículos ligados às urgências hospitalares irem parar, a meio da madrugada, ao edifício velho (no antigo Hospital de Santo André, no lado oposto da cidade), porque seguiram as indicações que ainda estão em vigor na via pública.
Não, desta vez, não é confusão da fofa, nem é minha a vontade de criticar. Fiquei a saber disto no próprio Centro de Saúde novo, dito por quem sabe. Portanto, meus senhores, como diz uma amiga de há muitos anos, menos riso e um pouco mais de siso. Toca a colocar na via pública os sinais devidos e com as direcções correctas para que não haja situações graves a lamentar. Digo eu, que nunca pensei que isto fosse possível.
Ingénuo. Como uma criança no meio de um campo de flores.

In "O Montemorense", Abril de 2016


domingo, 24 de abril de 2016

Abril, Abril...



Há 42 anos, tinha eu treze anos e fui, ao lado do meu Pai, (eu acho que ele me deu a mão, por questões sabe-se lá de quê!) à enorme manifestação do 1.º de Maio, junto ao Cine-teatro Curvo Semedo. Largas centenas de montemorenses juntavam-se, pela primeira vez em liberdade, para celebrar, não só o Dia do Trabalhador, mas ainda a Revolução que tinha começado na semana anterior. Velhos, novos, crianças, trabalhadores, todos viveram aquela nova experiência de lágrimas nos olhos. Havia bandeiras, música, gritos, abraços, discursos. E havia, ao contrário de hoje em dia, muita gente, unida no mesmo propósito: saborear de forma real, palpável, o que era estar na via pública, livre, feliz, com centenas de amigos à sua volta e sem pides ou bufos à espreita.
Uns dias antes, na manhã do dia 25, a professora Jesuína Raposo tinha-nos dito, assim que entrámos para a sala de aulas, prontos para mais um teste de Matemática: “Vão para casa, para junto dos vossos pais, porque hoje não há aula.” Lembrei-me que, nessa manhã, a minha Mãe tinha o rádio ligado e tinha soprado discretamente um segredo qualquer ao meu Pai, antes de este ter saído para o trabalho. Ao chegar à Avenida Gago Coutinho, acompanhado por alguns colegas da turma, parei. Os militares que tinha partido de Estremoz em auxílio do Capitão Salgueiro Maia, prestes a tomar o Quartel do Carmo, em Lisboa, desciam aquela artéria central da minha vila, metidos em chaimites revolucionárias, entusiasmadas e expectantes.
Em boa hora.



In "O Montemorense", Abril de 2016

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Como num campo de flores




É incontornável o momento que se vive neste mês. Lembrar a acção dos militares de Abril, ocorrida há 42 anos, é perpetuar a vontade indomável de não querermos de novo no país uma ditadura, desumana como todas as ditaduras, onde os mais pobres não tinham voz, onde os mais ricos detinham o poder e o domínio sobre os outros e durante a qual foram perseguidos, presos e mortos muitos dos que ousaram levantar a mão contra o querido líder e o seu abençoado regime.
Houve exageros durante todo o processo revolucionário. É inquestionável. Profundos e irreversíveis, como acontece, desde sempre, em todos os processos revolucionários. Voltaram a cometer-se injustiças, quando se procurou, com todas as forças, inverter os papéis e se pensava que qualquer um poderia gerir o país, ainda que, para tal lhe faltasse as “habilitações” necessárias. Os que saíram magoados da Revolução, e sabemos que foram muitos, gostariam que tudo tivesse sido de outra maneira. Talvez até isso tivesse sido possível. Se, antes de Abril, o povo português não tivesse alimentado durante décadas uma vontade indomável de querer ser livre. Depois, tal como um rebanho, solto após anos de cativeiro, mediu mal a liberdade e acabou por repetir erros contra os quais tinha lutado. Nunca George Orwell* tinha tido tanta razão.

Mas como viver um novo estado de coisas se tal nunca tinha acontecido antes? Soltemos uma criança num campo cheio de flores e verificaremos que ela, no seu entusiasmo ingénuo e com a sua inexperiência de vida, vai acabar por colher uma grande parte, acreditando que, nas suas mãos, ou nos vasos e nas jarras lá de casa, elas venham a ter uma maior hipótese de sobrevivência.

*George Orwell, (1903- 1950) escritor, jornalista e ensaísta político inglês, autor de Animal Farm (O Triunfo dos Porcos), onde denuncia os exageros dos regimes totalitários e as consequências das revoluções contra essas formas de governo.


In "O Montemorense", Abril de 2016

segunda-feira, 21 de março de 2016

Marcelo, o chef


O cozinheiro Marcelo vai, até ver, contentando a maioria. Consegue, como um bom chef, gerir os ingredientes que tem à disposição para, desta forma, poder confeccionar os pratos que vão satisfazendo os apetites mais exigentes, ou quase. Nem sempre os grandes chefs agradam a todos os comensais. Nem todos podem ganhar uma estrela Michelin. Mas Marcelo pode. É simpático, culto, tolerante, preocupado com as causas sociais, acutilante nas críticas à esquerda e à direita, mostrando, desde logo, capacidades de discernimento bastante superiores às do anterior Presidente que, na minha humilde e mais do que badalada opinião, já devia muitos meses aos chinelos de quarto e ao conforto descomprometido da sua casinha das duas (polémicas) marquises da Travessa do Possolo,13, 1350-252, Lisboa.
Marcelo tem nome de um governante que quase foi seu padrinho de baptismo, e Rebelo de Sousa são apelidos de outro governante, seu pai, Ministro das Colónias na era marcelista, quando ainda não se falava em liberdade, embora a vontade fosse muita. Ao contrário do que muitos da velha guarda esquerdista militante advogam, estes atributos não fazem dele, nem um defensor do Estado Novo, nem um representante da velha política. O actual Presidente da República mostrou, quer se goste, quer não, que é um aglutinador de ideias, um fazedor de consensos e um homem mais de esquerda do que muitos esquerdistas que se andam por aí a abanar pelas televisões, isto se é que ainda se pode falar em esquerda e direita em Portugal. Deixem-me abrir um parênteses para acrescentar que este tema nem necessitaria de muitas teses longas e chatinhas para se poder concluir que o espectro político actual tem mais a ver com birras e ódios antigos do que com a verdadeira essência da política pela qual nos devíamos governar. (Como estamos longe dos princípios dos gregos clássicos!)
Enfim, passemos à frente.
Marcelo Rebelo de Sousa é um one-man-show. Mas um homem-espectáculo no bom sentido da palavra. Ele começou por dar que falar quando nadou no Tejo e conduziu um taxi, na candidatura à Câmara de Lisboa, já lá vão um par de anos. Ele deu espectáculo nas televisões, enquanto comentador, zurzindo à esquerda e à direita, e, agora, enquanto mais alto magistrado da nação, continuou igual a ele próprio e o povo gosta assim, porque foi neste Marcelo que a maioria dos portugueses votou. Por isso, tinha de dar espectáculo no(s) dia(s) da tomada de posse. Sem medo de opiniões miserabilistas, consciente da sua vontade e sabedor da sua originalidade. Marcelo foi um bocadinho americano, no bom sentido, um bocadinho britânico, no bom sentido, um bocadinho nórdico, no bom sentido. Mostrou-se um cidadão do mundo, se querem saber mais. Um cidadão-político a celebrar a vitória com quem o elegeu.
Quem me conhece e me lê sabe que, pela minha formação e exemplos recebidos, não sou um homem de direita. E também sabe que eu sei que nem tudo o que a esquerda diz, escreve ou manda tem lógica e futuro. Nesta linha de pensamento, entra Marcelo, social-democrata, cristão, logo com tendência para a defesa dos mais necessitados, e um livre-pensador. Exactamente: um espírito livre. Diz o que pensa, escreve o que diz, faz o que escreve. Não sei quanto tempo vai durar este estado de graça. Mas acredito que o seu carisma, o seu savoir-faire não se vai esgotar assim que se varrerem os confettis e se arrumar o salão de baile. Que os deuses o conservem assim. António Costa pode vir a precisar, e muito, dele e do seu bom senso. E acreditem que vai ser para breve.


In "O Montemorense", Março de 2016 

quinta-feira, 17 de março de 2016

Cozinhar



Cozinhar faz bem à saúde e liberta-nos o espírito. Pegar nos tachos e nas panelas, na garrafinha de azeite, na cebola e nos alhos, nos coentros e na salsa e é o que basta para nos sentirmos uns alquimistas à procura da Pedra Filosofal. É um prazer imenso quando a casa se inunda dos aromas que nós produzimos a partir do nosso velho fogão, foco de luz do nosso reino improvisado, onde tentamos reproduzir ao pormenor as receitas que as nossas avós passaram às nossas mães e que continuam vivas nos pratos que levamos para as nossas mesas, aguardando, quantas vezes temerosos, a crítica sempre honesta da família. Transformar o cru em algo comestível, seja carne, peixe ou legumes é uma arte que só quem experimenta sabe, de facto, valorizar.
Para mim, cozinhar aos Domingos de manhã é também perpetuar a visita habitual da minha Mãe. É imaginar-me com ela, sentada no seu banco preferido, no seu fato preto de viúva, a escutar-lhe as palavras sábias (sempre sábias) sobre o tempo e o modo como preparar cada ingrediente, como aromatizar cada molho, como, enfim, arrumar tudo na panela, aberta e disponível, transformando em lume brando um Caos aparentemente sem solução numa Ordem Sagrada onde tudo, com tempo e amor, acabava por encontrar uma deliciosa solução.

E o maior elogio que já recebi não foram os habituais e previsíveis “Que delícia!“Tens muito jeito!” “Mas que sabor requintado!” Não. O maior elogio que já recebi foi simples, e, como todas as coisas simples, tocante e mágico: “Sabes, Pai, estas migas com carne de porco sabem mesmo às migas da avó Rosa”. 

In "O Montemorense", Março de 2016

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Pato, arroz de


E pronto. Socialistas e não socialistas, comunistas e não comunistas, bloquistas e não bloquistas (os Verdes e o moço dos Animais) ficaram a saber (mais uma santíssima vez) que o que se diz nas propagandas, perdão, nas campanhas, e nos comícios políticos nada corresponde à verdade. Portugal foi às urnas a 4 de Outubro e, depois disso, nada foi igual neste país de santos, heróis e reis, entre os quais, um que plantou o Pinhal de Leiria (que trabalheira) e outro que construiu o Convento de Mafra (ficando 3 meses de real cama depois de acarretar tanto pedregulho).   Mas não mudemos de assunto, que o caso é sério: se os americanos têm o naine-êlévan, nós temos o quatro-do-dez, que foi também a coisinha mais estranha que nos aconteceu. Passo a recordar aos meus 12 leitores: a Coligação PSD/CDS ganhou as eleições legislativas por maioria relativa, o Presidente da República empossou o pessoal de direita e, coisa dita, coisa feita, os partidos de esquerda despacharam-nos em menos de nada, “obrigando” o aflito Presidente a dar posse como Primeiro a um rapaz que tinha perdido as eleições. Ainda bem que Costa não tem tendências nazis, salazaristas ou pró-islão com bombas à cintura, senão era Primeiro à mesma e lá teria de dar-se uma limpeza assim por alto ao Forte de Peniche, à cadeia de Caxias e ainda uma enceradela aos cubículos do Tarrafal, pois era mais que certo que todos estes edifícios iriam novamente ser habitados.
Mas Costa não é nada disso. É um democrata, socialista e acho que também é laico, embora o padrinho Marocas também o tenha sido e, tal como eu, fosse à Missa de quando em vez. Bom… vamos seguir com a coisa. Costa, que também é isso tudo, terá de levar com mais um predicativo do sujeito: Costa é um brincalhão. Brincou com as incertezas dos portugueses, aproveitou-se do seu cansaço pela travessia deste enorme deserto de quatro anos de roubalheira aos seus ordenados e direitos, alertou que tudo ia ser diferente e má-na-sê-quê e eteceteraetal... E pronto: conseguiu convencer os ceguinhos dos outros partidos anti-coligação e espetou com a dita no olho da rua, com um Portas com ar de virgem ofendida e com um Passos com ar de virgem (só). Isto é, obrigou Cavaco a dizer que sim, “vais ser Primeiro-ministro”, nesta estranha democracia onde já não governa quem mais votos tem na urna, ao contrário do que aprendemos logo ali a seguir ao 25/4.

Portanto, e em suma, como diz um aluno meu (e diz muito bem) e também como refere o meu filho mais velho em relação às mais diversas situações do dia-a-dia (e refere muito bem), vem aí “outra vez arroz!” E é de pato. E os patos somos nós. “Quem mais?”, como diria George Clooney num qualquer anúncio ao arroz do referido palmípede.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Uma paixão sem sindicato



As grandes festarolas organizadas pelos sindicatos dos professores, as comemorações, os desfiles e outras coisinhas assim, já há perto de 5 anos que não contam com o meu contributo financeiro para os comes e bebes, cartazes, faixas e materiais quejandos, simplesmente porque depois de tanto inconseguimento, como diria a mui ilustre e prolixa ex-presidente da Assembleia da República, Sãozinha Esteves, era uma verdadeira burrice da minha parte entregar-lhes uma procuração a troco de um desconto no meu vencimento para me representarem mal, mal, mal, na luta pelos meus direitos.
A carreira de professor, se ainda mantém a dignidade que todos os dias lhe procuramos dar, deve esse estatuto aos próprios docentes, muitos deles prestes a entregar o cartão de sindicalizados, tal como fez este vosso amigo, com uma extremíssima vontade de os mandar cavar batatas, para ver se a economia do país melhorava.
Os sindicatos perderam a força e não conseguem alterar na lei uma única virgulazinha para que possamos ter um pouco mais de gosto pela profissão. E vamos ficando cada vez mais desgastados com o trabalho (e não estou a falar das aulas) que nos vão obrigando a fazer e com o ordenado cada vez mais emagrecido que nos obrigam a ganhar. E esse desgaste vai-se reflectindo, aos poucos, em todas as áreas e em todos os níveis de ensino.

Portanto, e em suma, devolvi o cartão de sindicalizado, expliquei porquê e comecei a perceber um bocadinho melhor as razões que levaram Margaret Thatchter a andar sempre tão desiludida, direi mesmo tristinha, com os sindicados ingleses. E a inenarrável Dama de Ferro que nunca teve cartão! (Nem Cristo teve biblioteca).

In "O Montemorense", Fevereiro de 2016

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Cavalas




Vou escrever estas linhazinhas com uma tristeza profunda: os portugueses continuam mansos e mais conformados do que duas cavalas em azeite, anafadinhas numa latinha de conserva, na prateleira de um supermercado qualquer. Por que utilizei esta figura de estilo chamada comparação, para dar reforço ao motivo da minha tristeza? Porque quero homenagear os meus colegas professores de Português, porque nunca ninguém dá o devido valor às cavalas e porque a fofa é capaz de devorar aqueles peixinhos gordurosos como se não houvesse amanhã.
Pronto: contentei todos.

In "O Montemorense", Fevereiro de 2016

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O (ainda) benefício da dúvida


Não sei por quantas reformas já passaram os professores e os alunos desde o longínquo 25 de Abril de 74. Sei que em todas elas houve pontos positivos e pontos negativos mas que, surpreendentemente, raramente foram utilizados como partida para as reformas subsequentes. Notei que nos últimos anos do consulado de Sócrates e em todo o reinado de Passos se privilegiou a formação pouco aprofundada dos alunos, a necessidade de transição de ano sem que, muitas vezes, os conhecimentos mínimos tivessem sido alcançados, e com o único objectivo de Portugal figurar em posição de destaque nos rankings europeus de sucesso escolar. Felizmente que a maioria dos professores, pelo menos os das equipas pedagógicas a que tenho pertencido ao longo de mais de trinta anos, não alinhou nessas directivas do passem-os-alunos-senão-levam-tau-tau e continuou a trabalhar com o rigor que a sua consciência profissional desde sempre lhe ditou.
O novo ministro da educação, Tiago Brandão Rodrigues, investigador na prestigiada Universidade de Cambridge na área da oncologia, seria, como era de esperar, um verdadeiro desconhecedor das questões que têm atormentado quem trabalha nesta área tão fascinante que é a Educação. Não sabemos ainda quais os planos concretos do seu ministério. No entanto, as pequenas alterações que começou a introduzir parecem-nos apropriadas e com futuro. Talvez haja nas suas políticas e na sua eventual nova visão sobre estas coisas do ensino intenções de, através de reformas sérias e exequíveis, redignificar a carreira dos professores, responsabilizar os alunos por um maior empenho no seu trabalho, nas suas pesquisas e no estudo das matérias fundamentais para o seu futuro. Em suma, que não haja medo de possibilitar aos alunos, aos docentes por eles responsáveis, aos pais e a todos os parceiros capacidades e conhecimentos para que todos possam continuar livremente a escolher os seus caminhos, a lutar pelos seus ideais e a pôr em causa, sem sombra de hesitação, muitas vezes primeiro ainda que os tão inefáveis sindicatos, o que os governos decidem pôr em prática de lei para lhes tramar a vida, em nome de interesses escusos, filhos muitos deles de pai incógnito e de ventre maldito.

In "O Montemorense", Janeiro de 2016


sábado, 16 de janeiro de 2016

PR precisa-se. Activo, se possível!




Sabemos que os poderes do Presidente da República são, podemos dizer, relativos, o que leva a vox populi a afirmar constantemente, em tom de desdém: “Ele não manda nada!” Mas manda. E muito. Basta pensarmos que esta mais alta figura do Estado tem nas suas mãos, e é da sua competência, o veto e a promulgação de leis, bem como a demissão do Governo, a exoneração do Primeiro-ministro e a dissolução da Assembleia da República. Acham pouco? Eu não.
Claro que jamais poderemos medir essa capacidade e essa possibilidade tendo como referência o ainda Presidente Cavaco Silva. A sua inacção total (apatia cívica e política) perante algumas das situações gritantes que ocorreram nos últimos quatro anos em Portugal não pode nem deve ser tomada como prova cabal da limitação de poderes do PR. Cavaco Silva não reagiu, não vetou leis desumanas nem dissolveu o Parlamento, mantendo quase sempre um silêncio incómodo para todos (menos para ele) e primando pela sua ausência nos exactos momentos em que Portugal dele precisava. E isto porque o enigmático PR, circunspecto e aparentemente pacificador, entendeu que não devia contrariar o Governo de Coelho/Portas, para não ter de gramar a situação que sempre lhe incomodou o sono: ter o país, um dia, governado por um partido de esquerda com o apoio dos outros partidos de esquerda.
Afinal, verificou-se que tal “pormenor” seria uma mera questão de tempo. E uma questão de devolver aos desempregados, aos idosos, aos mais jovens, aos que emigraram cheios de força e de talento, ao país em agonia, a réstia de esperança que outros lhe roubaram sem dó nem piedade para servirem, com vénias e salamaleques, os mercados e os mercadores que neles mandam.

O Presidente da República que está para chegar não pode ter medo de assumir as suas responsabilidades e de fazer valer os poderes que lhe são atribuídos pela Constituição. E há que usá-los sempre que esteja em causa a soberania do país e a dignidade do povo que é dele o elemento principal e insubstituível.


In O Montemorense, Janeiro de 2016

Distraídos crónicos...

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