domingo, 18 de outubro de 2015

Os ditos da fofa (parte 3)



As sondagens levadas a cabo antes das eleições são cada vez mais fiéis aos resultados oficiais. A malta cola-se ao televisor nas noites eleitorais não para saber quem ganhou, mas para comparar as percentagens atribuídas a cada força partidária com os números apresentados previamente pelas sondagens. E é, de facto, impressionante. Há uma diferença mínima, é certo, mas que não influencia o resultado final. A minha fofa andou a cismar nisto, porque desde a hora do almoço que não me dirigia a palavra. Chamei-a: “Vou mandar o Cloreto deste mês à D. Maria Manuel. Queres lê-lo?” Ouvi-lhe os passinhos curtos e leves, porém circunspectos: “Pode ser…” E leu. E concluiu: “Se as sondagens reflectem antecipadamente o resultado eleitoral, não vale a pena o povo ir às urnas. Não se consegue mudar nada…” Tinha razão.
Ouviu-se a campainha da porta. “Deixa-me ir abrir”, disse ela. “São aqueles três de que falámos há pouco.” Para mim: “Vai buscar o Balú e põe-lhe a trela.” Ainda a ouvi cumprimentar: “Boa tarde, senhores doutores. Esperem um bocadinho que o Balú já está quase pronto para o passeio. Aí vem ele. Ah! Doutor Portas, tem aqui uns saquinhos de plástico para… enfim, o senhor sabe… Pronto, divirtam-se e bom passeio. E se o Balú não obedecer às vossas ordens não lhe prometam nenhum osso extra. Ele é muito mais inteligente que muitos portugueses…”

In "O Montemorense", Outubro 2015

sábado, 17 de outubro de 2015

Os ditos da fofa (parte 2)



Após quinze anos de propaganda eleitoral na televisão portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) candidata-se ao mais alto cargo da nação. Isto se ainda existir nação quando chegarmos a Janeiro. E julgo que a sua primeira tarefa, em defesa dos valores da pátria e dos direitos dos portugueses (se ainda houver portugueses) é demitir o Governo, dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições. Se MRS for coerente com o que pareceu pensar e defender ao longo destes anos, vai ser esse o primeiro gesto de salvação nacional. Costa, Passos, Portas e outros estão manchados por anos de mau uso do poder público, por incumprimento constante e contínuo da sua palavra, pela mentira descarada e sem vergonha, pela falta de sentido cívico e social para com todos os que mais precisam.
A fofa, sempre atenta às minhas preocupações, levantou os olhos do cachecol amarelo-fluorescente que estava a tricotar e atirou, convencida: “Eu sei como é que esses políticos podiam recuperar a dignidade e o prestígio.” Saí do meu momento de repouso e abri, tímido, o olho direito. Sentindo-me atento, continuou: “Eu cá convidava os três para virem até cá e passearem o Balú.” Abri os dois olhos, acreditando que ela não estava a sentir-se grande coisa. E concluiu: “Quando as pessoas começassem a ver esses três em boa companhia, sei que muita coisa poderia mudar. Não é, Balú?” Desta vez, foi o labrador, pachorrento, que abriu um dos olhitos, soprando um uff!! ensonado. Eu fechei os meus e consegui pensar ainda antes de voltar a adormecer: “É capaz de ter razão… Amanhã telefono aos tipos.”

In "O Montemorense", Outubro 2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Os ditos da fofa (parte 1)




Já me ando a repetir. Mas no preciso momento em que alinhavo estas ideias não sei se o meu futuro e o futuro dos meus vão estar dependentes de um governo dito de direita, se de um governo dito de esquerda. E isso preocupa-me. Ambas as possibilidades me preocupam. Gostaria de acreditar que qualquer um serviria para nos oferecer a estabilidade de que precisamos para a nossa vida. No entanto, pensar assim é atingir um nível de estupidez a que não me posso permitir. A minha fofa, consciente das minhas preocupações, regressou um bocadinho ao passado para concluir umas coisas que se para nós são óbvias, já tal não são para a maior parte dos portugueses que sofre, indiscutivelmente, de amnésia, autismo e síndrome de Estocolmo. E disse-me ela, um dia destes, à hora do jantar: “Se o governo PS de Sócrates pôs as máquinas a trabalhar e escavou o pântano, o governo PSD/CDS de Passos e Portas alargou o perímetro do dito e empurrou-nos lá para dentro. Por isso, como é possível os portugueses quererem, feitos borregos, que qualquer deles governe o país?” Calou-se pensativa. E exclamou entre duas garfadas de arroz de pato: “Ah! Já sei! O sofrimento nesta terra de passagem é garantia de salvação eterna!”
Sim. Nem no tempo do Salazar havia tanto misticismo e tantos mártires em regime de voluntariado.

In "O Montemorense", Outubro 2015

Distraídos crónicos...

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