quarta-feira, 25 de março de 2015

Alegre convívio



Montemor é uma pequena aldeia. Já o sabemos. Mas é uma grande metrópole quando pensamos na dificuldade que existe em estarmos, mais amiúde, com os amigos ou com os familiares. É a falta de tempo. É o cansaço depois de um dia de trabalho. É outra coisa qualquer. O motivo é sempre válido e aceite tacitamente por todos.
Contudo, para além das missas de Domingo ou de uma ou outra iniciativa cultural ou desportiva que nos junta, quase por acaso, existem outros momentos em que se aproveita para matar saudades, para pôr as novidades em dia e combinar, ainda que sem grande força anímica, uma jantarada, um passeio ou apenas um café para descontrair. Esses momentos são... os funerais.
Pois é: é aí que damos de caras com quem não conversávamos havia muito tempo. E, sem qualquer desrespeito para com o falecido ou a família, fala-se de tudo um pouco, desde o tempo, até ao primo que se alistou na marinha para fugir ao desemprego. Desde a conta da luz, à vizinha do segundo esquerdo que já vai no quarto casamento. Dos assaltos de que somos vítimas por causa dos banqueiros e de outros tubarões, ao nascimento do netinho da vizinha Ercília que tem um marido de ouro só que já não diz coisa com coisa. Durante uns bons minutos (por vezes umas boas horas) o cenário do velório esbate-se e fica lá muito longe, com o espaço ocupado pelas memórias, pelas novidades, pela alegria que reina entre os amigos que há muito não se viam. E passam-se alguns momentos... agradáveis.
E à despedida? Bom, nessa altura, lá vem a velha frase: “Para funerais temos sempre de arranjar tempo. Para fazermos um petisco lá em casa... é uma carga de trabalhos para todos estarem disponíveis”. “É verdade, é verdade! Temos de combinar qualquer coisa!”

E pronto. Damos um abraço e até qualquer dia que tenho pressa. Ou até ao próximo funeral... desde que não seja o nosso.

sábado, 21 de março de 2015

Querido Balú:


     

       É a primeira vez que escrevo uma carta a um cão. Pode ser sintoma de caquetismo precoce, pode ser um pretexto para um exercício literário diferente ou, quem sabe, será tão somente uma manifestação de ternura em nome de todos os que, cá em casa, tal como eu, te consideram mais um membro da família.

      Tu não és um cão, sabias? És um gato persa, uma águia imperial, uma tartaruga de Madagáscar, um hamster de pêlo sedoso, um peixinho dourado. És um companheiro que nos recebe entusiasmado quando chegamos a casa, no final do dia. És um vigilante que desperta ao menor ruído e denuncias, com cuidado, quem se aproxima de nós. És um companheiro silencioso, sentimentalão, que nos acompanha nos bons e nos maus momentos. Que fica triste quando o pessoal anda mais abatido, que salta em direcção ao Sol ao sentir as energias positivas a circularem pela casa.
      Sabes quando podes estar connosco e quando deves ir para o teu canto, quando deves comer e quando deves esperar. E nem te aborreces com os truques meio circences que todos te obrigam a fazer. E os amigos dos meus filhos? São uma fonte de inspiração para ti! A tua alegria redobra quando eles por cá estão. Todos te mimam e respeitam como animal quase racional que és. E tu gostas, maroto!! Tu gostas!
      Mas chegou o momento de te revelar uma coisa. Um segredo que nunca partilhei contigo por vergonha, confesso. Aqui vai... com o meu pedido de desculpas: quando entraste cá em casa pela primeira vez, uma bolinha de pêlo, nos braços da Rosária, nunca imaginei que vinhas para ficar. Julgava que eras apena mais uma visita. Porque nunca concordei em alargar o nosso espaço a um canídeo. Cães em casa? Náááá´, era a resposta, sempre que insistiam. Na noite da tua chegada, e depois de perceber que não estavas de passagem, senti-me incomodado a princípio. Porque a minha opinião não tinha sido respeitada. Porque eras o resultado de um plano bem urdido pela família e pela Rosária, cúmplice desta espécie de desobediência civil. Mas foram breves os momentos de “incómodo”. Bastaram uns minutos para entender a ligação que começou a nascer entre nós os dois. Entre nós os cinco e tu.
      E foi um privilégio assistir à tua metamorfose: ao longo dos meses, adquiriste o perfil de uma esfinge, a coragem de um leão, a sensibilidade de um cavalo, a classe de uma pantera negra, o bom humor de quem está bem com a vida, o espírito brincalhão de uma criança de dois anos, a generosidade, enfim, de um verdadeiro labrador.
      
      Sei que podemos contar contigo e também sei que a casa ficará mais vazia quando um dia nos deixares... Que esse dia venha longe. Que o teu olhar pacífico e, por vezes, melancólico, que nos embebeda de ternura, repouse sobre nós por muitos anos. Se podíamos viver sem ti? Poder, podíamos. Mas não seria a mesma coisa.
      Quando um dia leres estas linhas (eu acredito que não falta muito para aprenderes a ler), saberás, preto no branco, que ficou registado para conhecimento do universo que, afinal, somos os seis uma família.
       Recebe umas festinhas em nome de todos.

In "O Montemorense", 20 de Março de 2015



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