terça-feira, 15 de dezembro de 2015

... antes de entrar em 2016



Nesta altura do ano há sempre aquela mania, vinda sei lá de onde, de se fazer o balanço do ano. Faça lá o balanço do ano que está a findar, costuma pedir-se a quem gosta de andar sempre a escrever coisas sobre o país e o mundo. E o que é isso do balanço? Ninguém sabe, porque os resultados não servem rigorosamente para nada. Analisadas as falhas e as qualidades da nossa vida durante os últimos doze meses, ficamos a saber quase imediatamente que o que correu mal não tem muito a ver com o que fizemos ou com o que não fizemos mas com o que nos fizeram. Políticos e amiguinhos do peito continuaram e continuarão a tramar o mexilhão que, por muito que grite, sente aumentar ainda mais o vazio do abismo para onde o lançaram.
Então aqui vai:

Neste momento, no findar de mais um ano (este passou mais depressa do que qualquer outro, vá lá saber-se porquê) assisto, preocupado, à brutal ressurreição da extrema-direita em países que sempre condiderámos pais e mães da moderna democracia. E é exactamente por causa dessa democracia que um dia, mais década menos década, deixaremos de poder ser democratas. Então, quando um dia sentirmos na pele as marcas hediondas de um fascismo renascido, quando não pudermos dar voz ao pensamento e transformar o mundo ao sabor dos nossos sonhos, então, nesse dia, quero estar abraçado aos que já partiram.

Se querem que inclua neste tal balanço as próximas presidenciais e o carnaval que por cá vai por causa disso, devo concluir que Marisa Matias, Sampaio da Nóvoa, Edgar Silva e Maria de Belém Roseira gostam muito de Marcelo Rebelo de Sousa. Estão tão ansiosos pela sua vitória que obrigam o eleitorado de esquerda a dividir-se (mais uma vez, mais uma vez), o que vai levar à vitória (já por ele anunciada variadíssimas vezes) o mais célebre professor do nosso país de liliputianos.

Quanto à estranha dança de cadeiras que recentemente assolou o nosso Governozinho, o povo (eu, tu e os nossos vizinhos, quem mais havia de ser?) não acredida (nem que lhe espetem um garfo nos olhinhos) que a mudança de laranja para rosa venha a resolver os seus problemas. Porque o povo já está careca de saber que os problemas aumentam sempre de legislatura para legislatura sem que se veja solução nem vontade efectiva de encontrar uma. Não convém encontrá-la: os mamões têm de continuar a mamar, os ladrões têm de continuar a roubar, os explorados, os ofendido, os espoliados têm de ver garantida a sua existência porque sem putativos atacados não é possível haver atacantes, sem potenciais vítimas os criminosos terão de ir para o desemprego ou para uma multinacional ou ainda para um departamento qualquer do Estado, pintadinho e mobiladinho à espera do anunciado inquilinozinho.

O Natal continua a ser, cada vez com maior intensidade, o momento da família. E só quando crescemos à custa de algumas mágoas profundas é que percebemos que esta quadra acaba sempre por transformar-se num momento de maior intimidade entre os que estão e os que já não estão. Porque é a memória que prevalece. E o amor também, embrulhado neste tempo em que regressamos à infância e ao Inverno do nosso contentamento.
Recordamos as idas ao musgo, debaixo da ponte de ferro, o pequeno pinheiro que o Pai trazia de uma das suas muitas viagens em trabalho, e que a Mãe enfeitava com bolinhas brancas de algodão (em vez das bolas coloridas – e caras), as figuras do presépio compradas no saudoso Julinho de Alcântara, esse homem engenhoso que punha comboios eléctricos a andar, a velocidade considerável, uns por cima outros por baixo, na entrada do nosso Mercado Municipal.
Queremos reviver esses momentos, todos estes anos depois, nas nossas casas, com as nossas novas famílias, depositando religiosamente o mesmíssimo Menino Jesus de barro no estábulo de Belém, fixando no verde a ridícula ponte de três arcos, completamente anacrónica, passando por cima de um pato de plástico, ainda mais ridículo, a nadar estaticamente num lago de prata, e alinhando os três Reis Magos, montados em camelos mais pequenos que o São José encostado ao báculo. Contudo, para nós, putos e felizes, tudo fazia sentido.
São memórias que nunca partem, tal como os nossos que nos parecem deixar para sempre mas que, paradoxalmente, nos acenam todos os dias, espreitando, vigilantes, em cada uma das esquinas das ruas da nossa cidade.

Pronto. Queriam um balanço? É este o balanço que consigo fazer. Provavelmente muito igual ao vosso. Bom Natal.
A fofa pede-me da cozinha que aqui deixe um abraço de boas festas aos nossos 10 leitores.
Pronto, já deixei. Se continuamos juntos? Claro! Eu, vocês e a fofa.

In "O Montemorense", Dezembro 2015


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

"Não há longe nem distância" *


           Ainda em pleno rescaldo dos acontecimentos de 13 de Novembro, em Paris, poucos têm ainda o discernimento suficiente para lançar as habituais opiniões, sempre doutas e seguras, sobre este género de situações para as quais não há, aparentemente, qualquer hipótese de prevenção. Atentados ocorreram desde sempre, em lugares longínquos do globo mas que, para nós, portugueses-a-vivermos-num-paraíso, não têm passado disso mesmo: de mortos aos milhares, rios de sangue, torturas e execuções mas que acontecem longe, muito longe, e que, graças ao longe, à distância e à nossa falta de capacidade de processamento, não passam de situações dramáticas que jamais em tempo algum nos poderão atingir, a nós, portugueses, pacíficos e (mais ou menos) tolerantes.
Milhares de artigos foram escritos nestas últimas horas sobre Paris, narrando o terror e a incerteza vividos pelas dezenas de vítimas inocentes; sobre a falta de segurança e a incapacidade das autoridades de lerem os avisos que vinham sendo lançados desde os atentados de Nova Iorque (2001), de Atocha (2004) ou de Londres (2005). Multiplicam-se agora as estratégias para cumprir a velha máxima da “casa arrombada, trancas na porta”. E que passam, na sua maioria por outras acções de violência que, pelo seu carácter radical, dificilmente serão a solução verdadeiramente eficaz. E aqueles que, veiculando várias teorias da conspiração, não aceitam a entrada de refugiados na Europa, encontraram nos atentados de Paris o motivo deliciosamente exacto para elevar ainda mais a voz contra os que procuram a paz e uma vida normal num canto qualquer longe da guerra e da fome. Também eles vão, consequentemente, levar com os estilhaços destes momentos tão cruciais para o rumo da Europa, hoje cada vez menos tolerante e cada dia mais fechada. Eles e outros. Vai iniciar-se a inevitável caça às bruxas que, em tempos de triste memória, fez as delícias de Católicos e Protestantes temerosos pela perda do seu domínio sobre as mentes e os comportamentos do mais comum dos mortais. Como podemos ver, tem tudo a ver com religião. E com poder.
Como é viver em Paris, a partir do dia 13 de Novembro? Em termos de quotidiano, tudo se alterou. Viver a vida pacificamente numa rua qualquer de Paris, de Londres ou de outra cidade europeia (e americana) já não será possível, pelo menos durante o tempo em que as imagens dos massacres de Paris (e outras, repescadas de outros ataques terroristas) continuarem, repetidamente, a passar nas televisões de todo o mundo.
Os trágicos eventos que nos levaram as estas reflexões só aconteceram como consequência directa da ingerência por parte dos países ocidentais, sob o comando da sempre amada e todo-poderosa América, na gestão interna de vários países do Médio Oriente. E querer, à força, mandar em países com essas características, em que o poder do Estado não se distingue do poder Religioso (como, em tempos, aconteceu em Portugal), é como mexer num ninho de vespas: as consequências são, obviamente, imprevisíveis.

            Há uns tempos, quando se falava no Médio Oriente, em Israel e na Palestina, apontava-se para muito longe, aliviados pela distância. Mas já não é assim. O Médio Oriente é muito mais do que a disputa entre aqueles territórios, o longe já não existe e o Mal, na sua essência mais profunda e inaudita, está onde está um ser humano, quer use turbante, solidéu ou quipá.

* Richard Bach

In "O Montemorense!", 20/11/2015 

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Terror nacional


O Grito, Edvard Munch (1893)

Distraídos com os dramáticos (contudo, esperados a qualquer momento) ataques a Paris, esquecemo-nos de que fomos às urnas no dia 4 de Outubro e que ainda não temos um governo fixo. Por causa do horror a que temos vindo a assistir, deixámos de dar atenção aos ataques que a coligação dita de direita e a associação dita de esquerda fazem todos os dias à nossa inteligência. Porque o que eles fazem também roça o terrorismo. Não precisamos, pois, do Estado Islâmico para criar o pânico no pessoal luso. 
Eu explico: se o PS e os seus novos amigos assustam o povo quando dizem que o PSD e o amigo vão carregar nos cortes e nos impostos… isso é terrorismo. Quando o PSD e o amigo dizem que o PS e os novos amigos vão pôr o país na falência… isso é terrorismo. Quando se acusam mutuamente sem apresentarem soluções transparentes, dignas e seguras aos munícipes deste grande quintal, esses radicais estão a fazer terrorismo. Essas criaturas, cegas pelo desejo de poder (sempre o poder) não medem as palavras e muito menos querem saber do rumo que essas diatribes inconsequentes podem dar à nossa vida de todos os dias.
          Portanto, é urgente regressar à nossa realidade e aguardar, não sem alguma angústia, a decisão do Presidente da República, caso ele regresse da Madeira onde está neste momento na mais inútil visita de Estado de que há memória.

In "O Montemorense", 20/11/2015

domingo, 18 de outubro de 2015

Os ditos da fofa (parte 3)



As sondagens levadas a cabo antes das eleições são cada vez mais fiéis aos resultados oficiais. A malta cola-se ao televisor nas noites eleitorais não para saber quem ganhou, mas para comparar as percentagens atribuídas a cada força partidária com os números apresentados previamente pelas sondagens. E é, de facto, impressionante. Há uma diferença mínima, é certo, mas que não influencia o resultado final. A minha fofa andou a cismar nisto, porque desde a hora do almoço que não me dirigia a palavra. Chamei-a: “Vou mandar o Cloreto deste mês à D. Maria Manuel. Queres lê-lo?” Ouvi-lhe os passinhos curtos e leves, porém circunspectos: “Pode ser…” E leu. E concluiu: “Se as sondagens reflectem antecipadamente o resultado eleitoral, não vale a pena o povo ir às urnas. Não se consegue mudar nada…” Tinha razão.
Ouviu-se a campainha da porta. “Deixa-me ir abrir”, disse ela. “São aqueles três de que falámos há pouco.” Para mim: “Vai buscar o Balú e põe-lhe a trela.” Ainda a ouvi cumprimentar: “Boa tarde, senhores doutores. Esperem um bocadinho que o Balú já está quase pronto para o passeio. Aí vem ele. Ah! Doutor Portas, tem aqui uns saquinhos de plástico para… enfim, o senhor sabe… Pronto, divirtam-se e bom passeio. E se o Balú não obedecer às vossas ordens não lhe prometam nenhum osso extra. Ele é muito mais inteligente que muitos portugueses…”

In "O Montemorense", Outubro 2015

sábado, 17 de outubro de 2015

Os ditos da fofa (parte 2)



Após quinze anos de propaganda eleitoral na televisão portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa (MRS) candidata-se ao mais alto cargo da nação. Isto se ainda existir nação quando chegarmos a Janeiro. E julgo que a sua primeira tarefa, em defesa dos valores da pátria e dos direitos dos portugueses (se ainda houver portugueses) é demitir o Governo, dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições. Se MRS for coerente com o que pareceu pensar e defender ao longo destes anos, vai ser esse o primeiro gesto de salvação nacional. Costa, Passos, Portas e outros estão manchados por anos de mau uso do poder público, por incumprimento constante e contínuo da sua palavra, pela mentira descarada e sem vergonha, pela falta de sentido cívico e social para com todos os que mais precisam.
A fofa, sempre atenta às minhas preocupações, levantou os olhos do cachecol amarelo-fluorescente que estava a tricotar e atirou, convencida: “Eu sei como é que esses políticos podiam recuperar a dignidade e o prestígio.” Saí do meu momento de repouso e abri, tímido, o olho direito. Sentindo-me atento, continuou: “Eu cá convidava os três para virem até cá e passearem o Balú.” Abri os dois olhos, acreditando que ela não estava a sentir-se grande coisa. E concluiu: “Quando as pessoas começassem a ver esses três em boa companhia, sei que muita coisa poderia mudar. Não é, Balú?” Desta vez, foi o labrador, pachorrento, que abriu um dos olhitos, soprando um uff!! ensonado. Eu fechei os meus e consegui pensar ainda antes de voltar a adormecer: “É capaz de ter razão… Amanhã telefono aos tipos.”

In "O Montemorense", Outubro 2015

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Os ditos da fofa (parte 1)




Já me ando a repetir. Mas no preciso momento em que alinhavo estas ideias não sei se o meu futuro e o futuro dos meus vão estar dependentes de um governo dito de direita, se de um governo dito de esquerda. E isso preocupa-me. Ambas as possibilidades me preocupam. Gostaria de acreditar que qualquer um serviria para nos oferecer a estabilidade de que precisamos para a nossa vida. No entanto, pensar assim é atingir um nível de estupidez a que não me posso permitir. A minha fofa, consciente das minhas preocupações, regressou um bocadinho ao passado para concluir umas coisas que se para nós são óbvias, já tal não são para a maior parte dos portugueses que sofre, indiscutivelmente, de amnésia, autismo e síndrome de Estocolmo. E disse-me ela, um dia destes, à hora do jantar: “Se o governo PS de Sócrates pôs as máquinas a trabalhar e escavou o pântano, o governo PSD/CDS de Passos e Portas alargou o perímetro do dito e empurrou-nos lá para dentro. Por isso, como é possível os portugueses quererem, feitos borregos, que qualquer deles governe o país?” Calou-se pensativa. E exclamou entre duas garfadas de arroz de pato: “Ah! Já sei! O sofrimento nesta terra de passagem é garantia de salvação eterna!”
Sim. Nem no tempo do Salazar havia tanto misticismo e tantos mártires em regime de voluntariado.

In "O Montemorense", Outubro 2015

terça-feira, 22 de setembro de 2015

E agora...?

         

           Há temas incontornáveis. Os dos refugiados de guerra domina a actualidade e o pensamento dos cidadãos de toda a Europa. Os portugueses não serão excepção e encontram-se divididos em dois grupos distintos que, dificilmente, encontrarão consenso. De um lado, os que defendem o apoio humanitário aos que fogem da guerra, da fome, da tortura e que procuram na Europa uma vida estável e digna. Do outro, os que gostariam, antes de mais, de ver apoiados os portugueses que ficaram sem emprego, os que têm fome, os doentes, os maltratados pelo nosso sistema político e financeiro, os que perderam a casa, a família e que dormem nas ruas, sem saberem como vai ser o dia de amanhã.
Julgo que ambas as perspectivas têm razão de ser. A ajuda aos protagonistas da maior crise humanitária desde a Segunda Guerra, na lista de prioridades do governo português, tem em conta a necessidade urgente de protecção e de integração dos que procuram asilo. E essa integração não terá, naturalmente, só a ver com um abraço amigo de conforto. Há que criar alojamentos, postos de trabalho, espaço nas escolas para as crianças, espaço nas comunidades para as famílias. Portugal foi sempre um país hospitaleiro, talvez por ser uma nação de onde partiram, e continuam a partir, emigrantes sem alternativa a não ser procurar melhores dias noutros países. E é este o ponto de colisão entre as duas posições. Se há gente a partir por não haver empregos, como poderão os refugiados ser integrados no mercado de trabalho? Se vão ser dados alojamento a diversas famílias prestes a chegar a Portugal (casa, água, luz, gás...) por que não fazer o mesmo às centenas de famílias que, sem emprego, vivem no limiar da pobreza, num desespero permanente e sem perspectivas de futuro? Se vai haver dinheiro para ajudar as crianças e os jovens em idade escolar, por que não se dá um maior apoio às famílias carenciadas que não têm dinheiro para comprar um lápis ou uma caneta? Por que não alargar o âmbito de apoio nas escolas e outras instituições a todas as crianças portadoras de deficiência?
          O ideal seria dar cobertura a todas as situações: às nossas e às dos outros. E sei que, se a vontade política fosse outra, era isso que acontecia. Mas a questão está longe de ficar arrumada. Vamos, em breve, ser postos à prova sobre alguns dos nossos sentimentos mais escondidos. E vamos ficar a conhecer melhor de que ser humano é que somos feitos.



In "O Montemorense", Setembro de 2015

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Triunfo dos Porcos





Pouco me apetece falar destas duas personagens que me andam a entristecer os dias, já por si demasiado cinzentos, mas não sei o que pretendem os principais candidatos a primeiro-ministro. As acusações têm dominado esta campanha eleitoral, o debate que diziam ser tão decisivo acabou por ser um anti-debate e descambar num rol de acusações de parte a parte que só serviram para não esclarecer coisa nenhuma, porque nenhum deles conseguiu mostrar de forma clara como vai ajudar o país a entrar numa zona de equilíbrio que nos traga algum sossego. Porque para estas duas figuras Portugal não tem futuro. Só passado e estúpidos odiozinhos de estimação.
Sócrates, por outro lado, tem sido, vergonhosamente, a bola que os dois vão atirando um para o outro, sem nunca terem apresentado ao comum dos mortais propostas credíveis de solução para tantos e tantos problemas que nos afligem. Os líderes do Partido Socialista e do Partido Social Democrata, na euforia da troca de palavras, esquecem que os partidos que os apoiam são ambos responsáveis pelo estado a que isto chegou. Quem passou por todos estes governos democráticos, de Mário Soares a Passos Coelho?
Por isso, não sabemos o que esperar do próximo chefe de governo. É que, como diria George Orwell, o povo olha de Passos para Costa e volta a olhar de Costa para Passos e não consegue distinguir qual deles é qual.

E Paulo Portas? Sobre Paulo Portas apenas uma linha: esta.

In "O Montemorense", Setembro 2015


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Old friends





Quando começamos a perder seres que nos amaram incondicionalmente ao longo de toda a nossa vida e que, pelo sangue ou pela amizade, faziam parte indissociável de nós, do nosso ser, das nossas entranhas, do ar que respirávamos, tentamos, timidamente, encontrar formas de ultrapassar a dor, de minimizar o desgosto, de nos aproximarmos, discreta mas eficientemente, dos seus olhos, dos seus ouvidos, dos seus lábios. O ser humano, ainda que se diga sem fé, tem feito a sua vida, desde tempos imemoriáveis, como homem religioso que tenta encontrar noutra dimensão o que não encontra no mundo, na cidade, na rua onde vive. A certa altura, muitos afastam-se de uma prática religiosa, com maior ou menor intensidade, porque pretendem, com um olhar mais objectivo, tentar perceber a lógica do que, aparentemente, não tem qualquer lógica. Essa separação, quase sempre temporária, acaba, tantas vezes, por dar frutos. E é preciso começarmos a perder os que mais nos amavam para percebermos que o mundo pode ser mais do que terra, água, ar e fogo.

In "O Montemorense", Setembro de 2015

terça-feira, 21 de julho de 2015

Eles adoram o povo



Vêm aí mais umas legislativas. Já se nota o nervosismo dos senhores que, no Governo e na Assembleia da República, irão continuar a fazer cumprir as orientações da troika, comandada pela inefável senhora Merkel. Começaram, sempre oportunos, Passos e Costa, a pendurar atempadamente as cenouras à frente dos burros para ver se ganham mais um tachito e se podem abrir algumas portas aos amigos mais necessitados.
Ora vejam lá como a vida pode melhorar de um dia para o outro... desde que haja eleições: já se fala do aumento dos abonos de família, da reposição dos salários, da recuperação da reforma dos professores aos 36 anos de serviço, do alívio fiscal... Os portugueses, mais uma vez, ficam sem saber como agir. Sentem ainda na pele e na família o peso das medidas de austeridade sofridas nestes últimos quatro anos e não esquecem o que lhes foi retirado, quer em termos de salário, quer em condições de trabalho e de aposentação. Vivem ainda na desconfiança de que o novo Governo, seja ele da cor que for, depois de ganhar a simpatia do povo neste período eleitoral, possa acabar por atraiçoar a confiança que nele depositaram. Não sei se o futuro sorri ao Partido Socialista, que se encontra com uma ligeira vantagem nestas sondagens mais recentes, mas sei que os actuais partidos do Governo vão continuar convenientemente casados, porque só assim é possível ao Partido Social Democrata formar um governo de maioria. De resto, não sei (ninguém sabe) mais nada. Sabemos, é uma verdade indiscutível, que alguns dos amigos de quem lá ficar vão ter uma vidinha regalada durante quatro anos. Isso é ponto assente. E nós, ainda não será nos próximos quatro anos que veremos os nossos problemas resolvidos.
Pode, no entanto, haver uma novidade que nos traga mais ânimo: em Janeiro de 2016, outro inquilino habitará o Palácio de Belém. Pode ser que o novo Presidente da República tenha capacidade e coragem suficientes para, dentro das competências que a lei lhe confere, estar mais atento aos problemas do país e aproximar-se com outra frequência dos mais desprotegidos.
Precisamos de um ponto de referência. Não de um mártir, de um santo ou de um herói nacional (já tivemos um durante mais de 40 anos e foi o que se viu!), mas de uma pequena luz que nos mantenha a esperança de voltarmos a ser felizes neste país onde, não fosse ele tão mal frequentado, seria fácil vermos de que matéria são feitos os sonhos dos que nele nasceram.

In "O Montemorense", Julho, 2015


domingo, 19 de julho de 2015

Silly, silly Balú!



Vem aí a estação das parvoíces, a silly season como já é conhecida há uns anos. E nesta época de Verão, a crise grega passa a ser marca de iogurte e os problemas da nossa pátria ficam localizados muito além da linha do horizonte que separa, de forma ténue, o céu do mar que o espelha (obrigado, Fernando). O Sol e o seu respectivo pôr, se há uns anitos era motivo para um passeio romântico à beira-mar, hoje é uma forma de legitimar o início de um período (que vai desde o pôr até ao nascer do dito) de valente descontracção. Basta vestir uns trapinhos de cor branca, pegar num copo (fundamental) e dançar como se não houvesse amanhã, com gente que não se conhece de lado nenhum. E o que se faz durante o dia? Dorme-se até à uma e, depois, faz-se tudo para não se fazer nada.
A praia passa a ser, nesta altura, o cenário de todas as loucuras: as gorduras das mais anafadinhas parece que derretem mas não derretem, porque entre uma sesta e outra arrefinfam-lhe com quatro bolas de Berlim com creme e três sem creme (por causa da dieta). Depois, quando o tempo não é o ideal para expor o físico, conquistado à custa de muito sofrimento nos ginásios deste país de musculados, as tias do croquete anexam-se a uns amigos de acasião e lá entram todos nas festas e recepções patrocinadas por revistas e televisões. Tudo isto é divertido, tudo isto é triste, tudo isto é fado (obrigado, Amália).
A silly season é também a época dos acasalamentos furtuitos, ocasionais e sem futuro. É fixe conhecer outros e outras que não os nossos e as nossas. E quem não teve um delicioso e tórrido amor de Verão que lance a primeira pedra (obrigado, Zezé).  E em relação à malta nova, todos sabemos que os amores de Verão acabam sempre por ficar na memória de quem os vive. A outra malta que, como eu, gosta de, no Verão, jantar fora, no quintal, acaba sempre por viver uns dias pacíficos, verdadeiramente relaxantes e sem problemas de maior.
Se dantes era no Carnaval que nada parecia mal, agora é no Verão que tudo é permitido, porque é engraçado, inofensivo, descontraído e quiduxo. Pois é, em Setembro, acabam-se as gracinhas e o abanar do capacete ao som de música reggae na onda do Everything's gonna be alright (obrigado Bob Marley). Mas haja esperança: se a areia da praia não se tiver enfiado no cérebro dos portugueses, amigos do sol e da boa vida, talvez ainda venhamos a ter gente capaz de cumprir Portugal (obrigado, Fernando, e desculpa o abuso).

E agora despeço-me, porque tenho umas sardinhas a assar no quintal. Vou receber esta noite a Condessa de Arraiolos e Excelentíssima Família que decidiram apresentar-me cumprimentos na sua passagem por esta mui nobre cidade de Montemor a caminho do seu palacete em Zambujeira do Mar. Já escolhi a música que nos vai embalar, todos de branco, até o Sol nascer ali por detrás da Serra das Vinagras! Se quiserem... apareçam.


In "O Montemorense", Julho 2015

domingo, 21 de junho de 2015

Não escrevo, não escreverei




Continuo e continuarei a escrever fugindo à maior ofensa dos últimos 100 anos à Língua Portuguesa, nossa Pátria e porto de abrigo. Escrever como nos obriga o tristemente célebre acordo ortográfico é escrever mau Português, é curvar a espinha aos países que nem se deram ao trabalho de promulgar essa coisa, é ficar reféns de interesses obscuros e manhosos, desrespeitando a língua e, consequentemente, quem a escreve de acordo com a correcção que ela merece. O que farão os alunos que foram apanhados a meio deste processo? Estarão todos os livros que comprei (e que escrevi) obsoletos? Mal escritos? Fossilizados? Bem como tudo o que se escreveu até agora, de forma correcta e coerente com as origens latinas e gregas do português? Então somos nós que nos temos de adaptar à grafia dos outros países de língua portuguesa, ex-colónias que já nada têm a ver connosco? São eles agora os nossos colonizadores? Era o que mais faltava!
Não. Não escrevo. Não escreverei. Fui ensinado por grandes professores a não escrever com erros ortográficos. Prendam-me, se quiserem.


In "O Montemorense", Junho de 2015

domingo, 14 de junho de 2015

Mentirosos de alto nível

           

       
       Se a escrita é uma forma de liberdade, a escrita ficcional é uma forma superior de liberdade. Escrever ficção, sejam romances, novelas ou contos, é mentir… com classe. É inventar realidades, pessoas, sentimentos e espaços, espaço interiores e exteriores, de tal forma que todos os que lêem acabam por acreditar que o imaginado é real, mais real do que a vida. É a célebre “suspension of disbelief” de Samuel Coleridge ou, de uma forma mais ou menos aproximada, “a suspensão voluntária da descrença". Isto é, recusamo-nos a não acreditar.
          São estas algumas das premissas que suportam os primeiros momentos num contexto de oficina de escrita criativa. Outras motivações que, nessas sessões, nos levam a orientar a imaginação e a técnica de jovens candidatos a escritores, é “colocá-los” no lado de dentro do texto e perceber assim, sob a perspectiva do criador, como funciona a sua “criatura”, chamemos-lhe texto, neste caso concreto, mas que poderia ser uma pintura, uma escultura, uma foto ou qualquer outra manifestação artística.
        Pois, neste final de ano lectivo, há, para além da habitual febre das notas, dos exames e das angústias inerentes e legítimas, um facto incontornável e, por isso mesmo, digno de anúncio. O Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Novo vai publicar uma edição de contos originais, da autoria de dois alunos que já começaram a dar que falar nesta área. Joaquim Quadrado e Mateus Lopes Bregas, agora a darem os primeiros passos numa área ingrata, difícil e demasiado banalizada, merecem o meu público agradecimento pelo esforço (isso da inspiração é um mito absurdo), pela paciência, pelo talento e pela capacidade manifestada em mentir tanto em tão pouco tempo.

Continuamos a espalhar mentiras logo em Setembro? Cá por mim…


                 In "O Montemorense", Junho 2015

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Araújo, João Araújo


Fala-se muito de José Sócrates mas não se dá importância a um dos advogados de defesa que tem dado a cara pelo acusado e que tem dado também mostras de uma enorme falta de ética e correcção, tanto em relação ao seu constituinte como perante os jornalistas que procuram relatar as ocorrências sempre que tais se justifiquem. João Araújo tem mostrado um profundo desprezo pelos profissionais da comunicação com respostas e remoques que ficam a dever muitíssimo à civilidade, à cortesia e ao respeito. Para não falar nas suas reacções às decisões do juiz e do procurador que, certas ou erradas, mereciam referências sem o show-off a que Araújo já nos habituou. Se Sócrates (quer seja ou não culpado das acusações) tem sido um mau exemplo para o país, a sua defesa, com ou sem razão, não o tem sido menos. Se eu fosse um advogado acabadinho de sair do exame da Ordem, iria apagar da memória o que aquele sénior nos tem ensinado nos tempos mais recentes.

In "O Montemorense", Junho, 2015

terça-feira, 26 de maio de 2015

Final de etapa



As aventuras de final de ano lectivo repetem-se com a rapaziada a cumprir o calendário dos testes derradeiros, trabalhos, pesquisas e apresentações. E é igual também o grau de preocupação dos pais e encarregados de educação que querem legitimamente que os seus filhos passem de ano, progridam no conhecimento e, consequentemente, se preparem para o novo ano que vem já ali. Mas nem sempre as coisas são assim. Se há alunos que se dedicam ao trabalho com empenho e algum sacrifício, muitos, direi mesmo a maioria, usam da cultura residual que vão acumulando ao longo do tempo e fazem-na render o melhor possível, bastando para isso a sua assiduidade e a atenção nas aulas.

Num terceiro grupo, há os alunos que não querem mesmo passar de ano nem se preocupam em aumentar os seus conhecimentos, práticos e teóricos, recusando até a aprendizagem seja do que for. Não entendo por que motivo a lei continua a obrigar estes alunos a esta violência diária que acaba por não ser nem compensadora nem motivadora para os restantes agentes de ensino. Há leis que deviam mudar. Ou então que se mudem as vontades e que esses alunos aproveitem ao máximo as oportunidades que lhes são dadas. Um dia poderá ser tarde.


In "O Montemorense" , 20 de Maio de 2015

Foto: Henrique Gabriel de Carvalho

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Peregrinos


Continuo a admirar profundamente a força que, todos os anos por esta altura, move os peregrinos em direcção ao Santuário de Fátima. Não sei se a fé, se a caridade, se a expiação dos seus pecados, se o cumprimento de promessas sagradas e impossíveis de desfazer. Seja o que for, sentimo-nos, decerto, um pouco como eles, não em direcção a Fátima, mas em direcção ao ponto último da nossa passagem por aqui. E um dia, depois desta viagem, mais longa para uns, mais curta para outros, mas quase sempre acidentada, chegamos finalmente ao nosso destino. Quando isso acontecer, que tenhamos deixado todas as contas pagas e os nossos filhos e netos encaminhados. E que os peregrinos de Fátima tenham o devido reconhecimento das mais altas esferas da hierarquia da Igreja: de Deus e dos Seus Auxiliares mais próximos.  

In "O Montemorense", 20 de Maio de 2015

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Pedro e António






Pedro e António. Personagens históricas? Ainda não. Muito tempo há-de passar até que a História se debruce de forma objectiva sobre eles e faça uma releitura dos seus actos e das suas omissões. Se Pedro e António afirmam categórica e indesmentivelmente que sabem governar Portugal, sabemos que isso não passa de uma cantiga já com barbas, que todos os políticos mais ambiciosos cantam até lhes doer a voz. Não sei se Pedro foi um governante exemplar. Sei aquilo que vejo e ouço, aquilo que não vejo e não ouço. Com a política de aumento de impostos e a diminuição de rendimentos para o Estado tapar os roubos que os de colarinho branco fizeram, parte da população do nosso país entrou no limiar da pobreza. E veio tudo em catarata: o encerramento de fábricas e restaurantes, a falência do pequeno comércio, o desemprego, a emigração de mentes e braços de qualidade mas desprezados.
A Ditadura do outro António era visível e impressionante. A de hoje remete-nos para um silêncio envergonhado porque só quem tem dinheiro pode ser livre de falar. Por isso, não sei se Pedro, se António, se outro qualquer tem capacidade, talento e generosidade para nos devolver a confiança perdida, para nos mostrar que Portugal ainda é possível, tanto para nós como para os nossos filhos e netos a quem deixámos, involuntariamente, uma herança armadilhada, um abismo que os vai começar a sugar logo que decidam “fazer pela vida”.
O erro que se vai repetir em breve é o mesmo de sempre: é o de permitir esta eterna alternância, entre o laranja e o rosa (com uns laivos de azul), este agora-tu-agora-eu-depois-tu-depois-eu que tem, comprovadamente, levado os portugueses a uma existência pouco digna.


In "O Montemorense", 20 de Maio, 2015


quinta-feira, 16 de abril de 2015

IV Olimpíadas Nacionais de Filosofia em Montemor-o-Novo




A Escola Secundária do Agrupamento de Escolas de Montemor-o-Novo vai acolher, nos próximos dias 17 e 18 de Abril, o evento das IV Olimpíadas Nacionais de Filosofia. O objectivo será seleccionar dois alunos que representarão Portugal nas Olimpíadas Internacionais de Filosofia, que este ano se realizarão em Tartu, na Estónia, no próximo mês de maio.

A escola de Montemor receberá 75 alunos oriundos de 35 escolas, de norte a sul do país. O pretexto é a Filosofia ou o pensar filosófico, o objectivo é aprender a pensar em grupo, partilhando pontos de vista e convivendo de forma saudável.
Montemor vai ser, durante dois dias, o centro nevrálgico do Pensamento e da Filosofia. A escola e a cidade já mereciam uns dias assim!! A minha colega Cristina Ferreira, professora de Filosofia, está aos comandos desta grande "empreitada"!

quarta-feira, 15 de abril de 2015

PET? What for?


Andam para aí uns exames que me causam alguma espécie. Não me parece muito lógico que alunos da disciplina de Inglês das escolas de Portugal se submetam a um exame para aferir do seu grau de competência Oral e Escrito naquela língua. Sinto que tanto a empresa organizadora da coisa – o Instituto Cambridge – como o Estado português que se lhe associou estão a passar, deliberadamente, um atestado de incompetência aos professores de Inglês deste país e, isso, por muitas voltas que lhe dê, não consigo admitir. Mais: desde quando precisam os professores de Inglês de se submeter a uma prova, supervisionada pelo Instituto Cambridge, para atestar da sua competência para corrigir esses tais exames que me andam a causar espécie? Isto acontece no meu país, porque as instâncias que me são hierarquicamente superiores o fomentam e permitem. Cá para mim, há aqui qualquer história mal contada. Ou, então, estão todos a ficar completamente insanos.
Além do mais, não vejo utilidade num diploma a certificar essas competências, se os alunos, (sobretudo os de 9.º ano) ainda têm de passar mais algum tempo na escola até poderem aceder a um emprego ou à universidade, tornando-se aqui, de facto, importante sabermos o seu grau de proficiência… Até lá, os diplomas pagos pelos pais ficam fora de prazo e os bolsos, dos pais, ficam um bocadinho mais vazios. Gostava de reflectir sobre a posição dos sindicatos em relação a esta questão (se é que a têm) e, principalmente, saber qual é o papel da Associação Portuguesa de Professores de Inglês no meio de tudo isto. Em suma: quem é que anda a ganhar dinheiro à custa dos nossos alunos e porquê. Vamos continuar assim? Vamos? Ninguém é Charlie?


In O Montemorense, Abril 2015

quarta-feira, 25 de março de 2015

Alegre convívio



Montemor é uma pequena aldeia. Já o sabemos. Mas é uma grande metrópole quando pensamos na dificuldade que existe em estarmos, mais amiúde, com os amigos ou com os familiares. É a falta de tempo. É o cansaço depois de um dia de trabalho. É outra coisa qualquer. O motivo é sempre válido e aceite tacitamente por todos.
Contudo, para além das missas de Domingo ou de uma ou outra iniciativa cultural ou desportiva que nos junta, quase por acaso, existem outros momentos em que se aproveita para matar saudades, para pôr as novidades em dia e combinar, ainda que sem grande força anímica, uma jantarada, um passeio ou apenas um café para descontrair. Esses momentos são... os funerais.
Pois é: é aí que damos de caras com quem não conversávamos havia muito tempo. E, sem qualquer desrespeito para com o falecido ou a família, fala-se de tudo um pouco, desde o tempo, até ao primo que se alistou na marinha para fugir ao desemprego. Desde a conta da luz, à vizinha do segundo esquerdo que já vai no quarto casamento. Dos assaltos de que somos vítimas por causa dos banqueiros e de outros tubarões, ao nascimento do netinho da vizinha Ercília que tem um marido de ouro só que já não diz coisa com coisa. Durante uns bons minutos (por vezes umas boas horas) o cenário do velório esbate-se e fica lá muito longe, com o espaço ocupado pelas memórias, pelas novidades, pela alegria que reina entre os amigos que há muito não se viam. E passam-se alguns momentos... agradáveis.
E à despedida? Bom, nessa altura, lá vem a velha frase: “Para funerais temos sempre de arranjar tempo. Para fazermos um petisco lá em casa... é uma carga de trabalhos para todos estarem disponíveis”. “É verdade, é verdade! Temos de combinar qualquer coisa!”

E pronto. Damos um abraço e até qualquer dia que tenho pressa. Ou até ao próximo funeral... desde que não seja o nosso.

sábado, 21 de março de 2015

Querido Balú:


     

       É a primeira vez que escrevo uma carta a um cão. Pode ser sintoma de caquetismo precoce, pode ser um pretexto para um exercício literário diferente ou, quem sabe, será tão somente uma manifestação de ternura em nome de todos os que, cá em casa, tal como eu, te consideram mais um membro da família.

      Tu não és um cão, sabias? És um gato persa, uma águia imperial, uma tartaruga de Madagáscar, um hamster de pêlo sedoso, um peixinho dourado. És um companheiro que nos recebe entusiasmado quando chegamos a casa, no final do dia. És um vigilante que desperta ao menor ruído e denuncias, com cuidado, quem se aproxima de nós. És um companheiro silencioso, sentimentalão, que nos acompanha nos bons e nos maus momentos. Que fica triste quando o pessoal anda mais abatido, que salta em direcção ao Sol ao sentir as energias positivas a circularem pela casa.
      Sabes quando podes estar connosco e quando deves ir para o teu canto, quando deves comer e quando deves esperar. E nem te aborreces com os truques meio circences que todos te obrigam a fazer. E os amigos dos meus filhos? São uma fonte de inspiração para ti! A tua alegria redobra quando eles por cá estão. Todos te mimam e respeitam como animal quase racional que és. E tu gostas, maroto!! Tu gostas!
      Mas chegou o momento de te revelar uma coisa. Um segredo que nunca partilhei contigo por vergonha, confesso. Aqui vai... com o meu pedido de desculpas: quando entraste cá em casa pela primeira vez, uma bolinha de pêlo, nos braços da Rosária, nunca imaginei que vinhas para ficar. Julgava que eras apena mais uma visita. Porque nunca concordei em alargar o nosso espaço a um canídeo. Cães em casa? Náááá´, era a resposta, sempre que insistiam. Na noite da tua chegada, e depois de perceber que não estavas de passagem, senti-me incomodado a princípio. Porque a minha opinião não tinha sido respeitada. Porque eras o resultado de um plano bem urdido pela família e pela Rosária, cúmplice desta espécie de desobediência civil. Mas foram breves os momentos de “incómodo”. Bastaram uns minutos para entender a ligação que começou a nascer entre nós os dois. Entre nós os cinco e tu.
      E foi um privilégio assistir à tua metamorfose: ao longo dos meses, adquiriste o perfil de uma esfinge, a coragem de um leão, a sensibilidade de um cavalo, a classe de uma pantera negra, o bom humor de quem está bem com a vida, o espírito brincalhão de uma criança de dois anos, a generosidade, enfim, de um verdadeiro labrador.
      
      Sei que podemos contar contigo e também sei que a casa ficará mais vazia quando um dia nos deixares... Que esse dia venha longe. Que o teu olhar pacífico e, por vezes, melancólico, que nos embebeda de ternura, repouse sobre nós por muitos anos. Se podíamos viver sem ti? Poder, podíamos. Mas não seria a mesma coisa.
      Quando um dia leres estas linhas (eu acredito que não falta muito para aprenderes a ler), saberás, preto no branco, que ficou registado para conhecimento do universo que, afinal, somos os seis uma família.
       Recebe umas festinhas em nome de todos.

In "O Montemorense", 20 de Março de 2015



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Modas da minha terra






Somos um povo de modas. Festejou-se o 28 de Maio de 1926, com vivas à ditadura, porque diziam os iluminados que só uma ditadura (e, ainda por cima, militar) iria endireitar um país de rastos, com mais governos de borco do que o pasto das searas em finais de Agosto. Depois, deram-se vivas a um Salazar, que arranjava sempre maneira de se apresentar em praças a abarrotar de gente, porque ele era o salvador, o D. Sebastião, que tinha salvaguardado os valores da nação. Mais tarde, com um Estado Novo já moribundo, veio a moda Marcelista, do tal senhor cuja Primavera não passou de um sol morno… posto logo à nascença, que ele ainda andava muito pressionado pelos salazaristas da altura.
Em Abril, e em vários abris subsequentes, gritou-se de alma aberta a nova moda da Liberdade que usámos e esgotámos até quase a deixarmos desaparecer. Parecíamos crianças de volta de um brinquedo novo que foi ficando cada vez mais gasto, estragado, abandonado a um canto, sem conserto. Entretanto, houve outras modas: a da maioria silenciosa, no 28 de Setembro, a do 25 de Novembro, a do 11 de Março. Serenados os ânimos (mais ou menos) houve a moda dos sequestros na Assembleia da República (“Chateia-me ser sequestrado, pá”, dizia Pinheiro de Azevedo, deveras incomodado). Depois, houve a moda do campismo selvagem, a moda do Timor Lorosae, a moda da Comporta revisitada, a moda de irmos à pesca com iscos de borracha, a moda de se comer pão integral às refeições, a moda das caminhadas à noite para manter a forma, a moda dos ginásios, com o step, a aeróbica e os armários.
Hoje, novas modas se apresentam e se discutem. Outras cores, outros tons. Pensamentos ditos modernos que nos levam a aceitar, com a naturalidade possível, escondendo uma hipocrisia sufocada, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adopção por casais homossexuais, a integração de crianças com necessidades especiais nas escolas, a mistura entre brancos, pretos, amarelos, louros, ruivos e azuis. Modas, digo eu, que vão e vêm com as mentalidades, com os tempos e com as influências que nos chegam das américas e dos brasis, das chinas e de outros confins do planeta, porque hoje moramos mesmo todos numa aldeia. E se a moda é também a dita globalização, então tenho esperança de que essa coisa ainda um dia me vá permitir estar na Tailândia, ir a um desses restaurantes de fast food e pedir uma MacAçorda ou umas MacMigas para matar saudades da santa terrinha.
A moda mais recente foi a do Charlie. Mas, ao que parece, já passou e o que muitos querem agora é despachar radicais islâmicos, porque eles atiram bombas e matam pessoas, porque estão em todo o lado, graças aos tentáculos de um polvo enorme e implacável. E há outras modas que a ética profissional me obriga a calar e a guardar para quando estiver reformado e me dê ao luxo de escrever as minhas memórias como professor de carreira.
Cheguei a este momento do texto com a narina esquerda levemente mais aberta do que a direita, sinal de irritação iminente. Isto porque as modas, todas as modas, têm o condão de me irritar. Porque obrigam à carneirada, ao seguidismo, à idiotice, à despersonalização. E não há coisa pior como a despersonalização. Ou a idiotice. Custo a acreditar como pode haver pessoas que embarcam nelas com a maior das facilidades, sem sequer reflectirem se é, de facto, aquilo que querem para a vida.
Mas há uma moda (e aqui é que bate a coisa), velha como o mundo, que a minha santa terrinha, tal como as terrinhas com a mentalidade da minha santa terrinha (que eu amo e defendo de todo e qualquer infiel) faz gáudio em alimentar: a moda de muita gente, deles e delas, se meter na vida de quem lhes apetece. Isto é que me deixa fora de mim. Mas sei que é um vício de tal forma arreigado que não há maneira de nos livrarmos dele. Falar deste ou daquele, da vizinha, do vizinho, do padeiro, do professor, do jardineiro, do empregado desta ou daquela loja, dar palpites sobre a sua vida, sobre o que não fez e o que devia ter feito, sobre a mulher, o marido, a família, os filhos, o cão e o periquito gay é mais do que uma moda. É um desporto. Um divertimento. Um motivo para apostas e tira-teimas. Um passatempo de gente inútil e com mais areia no cérebro do que aquela a perder de vista nas praias deste país.
A melhor receita para elas seria, por exemplo, arranjar uma vida própria, um namorado ou uma namorada, para estarem entretidinhos, um cão, um gato ou mesmo um periquito, independentemente das opções sexuais da ave. Ou, então, ir até à Casa dos Segredos.
Isso ainda era pouco. No fundo, no fundo, eu até sei onde elas deviam de ir.



In "O Montemorense", Fevereiro de 2015




quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Não sou Charlie



Deixar passar em claro a oportunidade de escrever sobre o assunto mais comentado da actualidade é ignorar o óbvio e desiludir os meus 10 leitores. Portanto, aqui vai.
Condeno sem reservas o ataque obsceno à redacção da Charlie Hebdo, uma revista satírica francesa que fazia (e vai continuar a fazer) as delícias dos seus leitores, com caricaturas fortes, sobretudo de personalidades ou entidades ligadas à religião. Apesar deste meu propósito, não sou o tal Charlie. Assumindo esse facto, tal como milhões assumiram o contrário, escrevi numa rede social “Je ne suis pas Charlie”, contrariando o slogan com que o mundo acordou pouco depois do atentado. Escrevi e logo escreveram a seguir o que lhes ia na alma, tornando o meu Mural num verdadeiro atentado à minha própria liberdade de expressão.
Por aqui se vê que é profundamente difícil discutir esta temática sem tentar perceber primeiro até onde pode ir o limite do humor e da liberdade, qual a delimitação da fronteira em relação à caricatura mordaz e violenta, e até se é possível usar de bom senso antes de se publicar seja o que for. Pois é, dirão muitos, o bom senso é uma cerca mascarada contruída à volta do nosso cérebro e onde se fecha a cadeado a democracia, a liberdade de expressão e a criatividade. Proceder a uma auto-censura prévia em relação ao que publicar é aceitar, irrevogavelmente, a limitação da nossa própria existência como seres pensantes e cidadãos do mundo.
Mas quem pode ser melhor ou maior cidadão do mundo? Não é, tenho a certeza, quem carrega cartazes e frases nas camisolas e na testa a dizer “Je suis Charlie” até à exaustão e a roçar o vulgar. Também não será aquele que, no cantinho do seu sofá, este já moldado ao corpo pela habituação, ignora a ameaça gigante que se repetiu recentemente, a meia dúzia de quilómetros da nossa casa, e cuja primeira versão aconteceu em Nova Iorque, no dia 11 de Setembro de 2001. Deixar que os nossos pensamentos sejam controlados por radicais, seja de que religião ou partido for, é um passo para a criação de uma sociedade totalitária, de terror e em guerra permanente. E não há religiões algumas que possam afirmar-se inocentes nesta matéria. Recordemos que noutros tempos, de igual infeliz memória, também a Igreja de Roma agiu de forma brutal contra quem pensava de outro modo. Também, mais recentemente no friso temporal, as notícias sobre Salazar eram sempre dadas no pretérito perfeito, à luz de uma certa religiosidade absurda: “No dia 2 de Outubro, sua Ex.ª, o Presidente do Conselho, ESTEVE na zona onde nasceu. Visitou a prima e a antiga empregada da casa...” (Este é um dos motivos por que lhe chamavam o “Esteves”). É que assim, com jornalistas domesticados a rigor, evitavam-se males maiores, como atentados, slogans despropositados ou manifestações espontâneas de desagravo a sua Ex.ª. Agir sem medo mas com a inteligência necessária para não cair no extremo oposto será, provavelmente, a uma única atitude possível.
Os que escrevem ou desenham em jornais sabem como é penoso, e contra a nossa natureza, teclar apenas o que os editores pretendem, de acordo com orientações governamentais ou determinados princípios religiosos ou morais. Quando, há uns bons anos, comecei a escrever na “Folha de Montemor” ou aqui, nesta coluna, ninguém me perguntou a cor da minha religião nem os temas que iriam ser alvos das minhas análises-mais-ou-menos-populares. Para entender a democracia e a liberdade não preciso de ser Charlie, nem de defender os ideais de um deus ou de um líder político. E é por isso que, ainda hoje, continuo a escrever. Porque não sou Charlie. Tenho ideias próprias e não gosto, não quero, não preciso que me mandem ser seja quem ou o que for.
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Então, como é? Quinze dias depois daquelas mortes injustas, bárbaras e inesquecíveis, continuam a ser todos Charlie? Ou já estão mais calminhos? É que os caricaturistas continuam a trabalhar e os islamistas estão atentos. Estes e outros radicais... que podem surgir de onde menos se espera. Mas nós, os ocidentais, só estaremos atentos (caso sobrevivamos) depois de uma bomba cair na nossa sala de estar, ao lado da chaise longue, a partir da qual enviamos mensagens e comentários incendiários para as redes sociais, sem, muitas vezes, ousar pôr o pé na rua. Mas esse gesto, caros leitores, também pode ser uma forma, não menos violenta, de terrorismo. Mas nunca deixem de escrever e de desenhar! Façam-no sempre! Mas assumam que tudo o que se escreve e desenha, para além de poder alertar para os problemas do nosso tempo, é capaz também de conduzir a consequências graves, resultado de gestos criminosos impossíveis de controlar.

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Já repararam, decerto, que o autor destas pobres linhas continua firme e irredutível a utilizar a grafia correcta da língua portuguesa. E porquê? Porque o dito acordo ortográfico é uma perfeita estupidez inventada por um bando de terroristas idiotas. Grupo ao qual jamais pertencerei. Nem com uma kalashnikov apontada. Je ne suis pas idiot!

In "O Montemorense", Janeiro de 2015

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