segunda-feira, 28 de abril de 2008

A última profecia de Nostradamus

Num feudo abandonado,
Mesmo às portas da Europa,
Trabalha, mas de mau grado,
Um povo com ar idiota.

Nada diz, amordaçado,
Olhos no chão como o gado
Subindo p’ró matadouro.
Com sua ira, pode o rei,
Uma manhã, mal-acordado,
Lançar mais impostos à grei.

E então já ninguém tira,
Seja de Beja ou Leixões,
Quatro ou cinco mil réis
P’ra jogar no Euromilhões.

E, portanto, quem é que ousa
Mandar bocas ao Sr. Sousa? (bis)

Nostradamus
(Salon-de-Provence, Abril de 1660)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

"Sei que não vou por aí"


No dia 25 de Abril de 1974, na ingenuidade dos meus treze anos, logo que os tanques desceram a nossa avenida Gago Coutinho, vindos de Estremoz, em direcção a Lisboa para dar apoio ao Capitão Salgueiro Maia (ninguém fazia a menor ideia quem era), entendi que algo ia mudar. A professora de Matemática mandou-nos para casa nessa quinta-feira, ficando o teste escrito adiado sine die. Tão ou mais badalado do que o feriado foi o facto de a professora Jesuína nos ter dito: “Vão-se embora, meninos. Hoje não há mais aulas.” Teste de Matemática adiado? Então a coisa era mesmo séria.
E era.
Nessa tarde de folga, em conversa lá em casa, fiquei com a certeza de que os meus pais sabiam mais de política do que eu jamais tinha imaginado. E explicaram-me o que estava a acontecer. O governo de Marcello Caetano tinha sido derrubado, Américo Tomás, ou o corta-fitas como eu os ouvia chamar-lhe de vez em quando, também não tinha condições para continuar no cargo e o povo andava na rua, livremente, sem nada nem ninguém que o segurasse.
Tinha chegado a Liberdade.
As facturas que temos vindo, aos poucos, a pagar por ela, com essas ninguém fez conta, tal era o entusiasmo e a fartura de meio século de ditadura e do consequente silêncio, dos maus tratos e da censura, das prisões e das torturas, das mortes e dos exílios e da miséria em que vivia a maioria do povo deste país. Impressionado pelas narrativas de muitos presos políticos, quer na televisão, quer em livros e jornais, fiquei com um fascínio, sem aparente justificação, pelo Forte de Peniche que eu vira pela primeira vez, a preto e branco, na televisão, quando libertaram os presos, um ou dois dias depois da revolução. É de tal ordem esta atracção, que todos os anos faço uma peregrinação até à velha fortaleza. Já lhe conheço os cantos, mas ainda não cansei o olhar nem a vontade de me passear por entre aquelas paredes onde muitos morreram para que eu hoje pudesse escrever estas linhas. Estas e outras. E levo comigo os meus filhos e conto-lhes as histórias que sei sobre aquele local. Algumas delas que o João do Machado me contou, serenamente, quase sem mágoa, com a pureza dos verdadeiros resistentes, como se falasse de algo acontecido há muitos séculos, sem se aperceber que também, a ele, lhe devemos a liberdade. Fazem-me perguntas, os gaiatos. E eu respondo-lhes. Mas não escondo que nessa revolução de Abril também houve, como em todas as revoluções, pessoas boas e pessoas menos boas, portugueses puros e portugueses com menos pureza de intenções. E falo-lhes dos exageros, das injustiças, das zangas entre pessoas da mesma família, do corte de relações entre amigos. Por causa da política, dos partidos, da revolução. Em nome de um país que renascia das cinzas, sem rumo certo ainda. (“Não sei por onde vou, / não sei para onde vou, / sei que não vou por aí!”).
Está mais do que provado: se acontecem revoluções é porque o próprio estado das coisas exige mudança. Uma revolução é, mal comparada, como um assassinato – o eliminar de um passado que se quer definitivamente afastado: para tal tem de haver oportunidade, motivo, arma e executante. E havia tudo isto. Mas nem todas as situações foram acauteladas. Porque não se sabe, porque não se tem experiência de fazer revoluções, ou porque se confia demasiado nos revolucionários. Sobretudo, porque uma revolução não se agarra depois de solta.

Trinta e quatro anos depois, já sem palavras de ordem escritas nas paredes, sem as sedes de alguns partidos incendiadas, sem ataques bombistas legitimados pela palavra revolução, com o pó já a repousar nas estradas deste país, com os ânimos menos exaltados e algumas pazes já feitas entre moradores da mesma rua, e analisados os factos, mesmo por alto, sabemos (sentimos) que o saldo foi positivo. Hoje sabemos que a liberdade tem um preço e, embora haja feridas por sarar, longe vão os dias de medo e insegurança vividos no Alentejo e em Montemor, mesmo depois da madrugada revolucionária que entrou nas nossas vidas, impregnada de um romantismo que, aos poucos, se desfez.
A terminar este apontamento, recordo-me do ano em que Salazar morreu: 1970. O dia fui confirmá-lo há pouco: 27 de Julho. Consequência da histórica queda de uma cadeira, tombo que arrastaria consigo, aos poucos, o regime já meio apodrecido e em lenta implosão. Pois nesse dia, assim que o meu pai chegou a casa para almoçar, a minha mãe foi logo ter com ele e disse-lhe em voz baixa, parecendo aparentar um certo alívio: “Acabou de dar na Emissora. O homem já morreu.”. “Quem?”, perguntei eu do alto dos meus nove anos. Já não sei precisar a exactidão da resposta que a minha mãe me deu, mas lembro-me que se virou para mim e, com uns olhos que não admitiam desobediências, sentenciou mais ou menos assim: “Não se fala deste assunto com ninguém”.
Só anos mais tarde vim a perceber o porquê da preocupação estampada naquele olhar.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Útil, este Antigo Testamento...

"And what if it pours for more than 5 minutes in a row?", perguntou o rato às ratinhas.
"You shall all perish like f* dogs." - cortou uma das girafas, piscando o olho às amiguinhas.

Noé, notando a preocupação dos animais, e vendo que o sistema de escoamento da sua cidade não era lá muito de confiança, decidiu que iria começar a construir um barco nessa mesma noite. Assim que acabasse a novela da TVI.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Já não se fazem cadeiras como antigamente


Há 34 anos, um grupo de militares saiu de Santarém e tomou Lisboa de assalto. O povo acorreu às ruas e viu que o país estava à beira da mudança. Tinha chegado ao fim o regime totalitarista iniciado com o golpe de 28 de Maio de 1926 e que se havia de manter até ao dia 24 de Abril de 1974. Portugal salazarista parecia ter chegado ao fim. Portugal salazarento havia de perpetuar-se porque as mentalidades não mudam com uma revolução. Por muitos cravos que se ponham nas espingardas.
Os presos políticos saíram das cadeias, a censura foi abolida, foi (re)instituída a liberdade de expressão, de reunião e de opção partidária. O estatuto de “orgulhosamente sós” deixou de fazer sentido e fomos matriculados numa escola europeia onde aprendemos que para receber é necessário dar. Fomos ficando menos ignorantes, escreveram-se novos livros, novas canções, novos poemas. Os que tinham vivido no exílio regressaram ao país em festa. O povo andava feliz e disse em alta voz que nunca mais queria saborear as delícias de uma ditadura, que nunca mais queria ser oprimido e obrigado a viver abaixo dos limites da pobreza. Gritou durante dias e meses, até ficar tudo bem claro, não à censura, não à violência policial, não à discriminação, sim à educação para todos, sim ao respeito por quem trabalha, à alfabetização, à igualdade de oportunidades, à justiça social. Manifestou uma confiança cega nos governantes que, com o voto do povo, geriram os seus destinos, porque os políticos haviam de saber o que era melhor para o seu povo, amordaçado havia quase meio século. Pois.
Há muitos anos, o britânico George Orwell escreveu um livrinho chamado Animal Farm e que se encontra publicado em português com o título O Triunfo dos Porcos. Ao relê-lo não consigo deixar de admirar cada vez mais a visão e a sensibilidade daquele escritor britânico. Se eu não soubesse que aquela história revolucionária passada na Quinta do Sr. Jones tinha sido escrita em 1945, era levado a acreditar que o autor tinha vivido em Portugal nos últimos 34 anos.
No livro só falta entrar uma cadeira que, pela sua fragilidade, ajudou a derrubar um regime, mas que depressa foi substituída por uma poltrona de veludo com oito pernas, não vá o diabo (ou o povo) tecê-las.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Precipitaçãozinha


A história do telemóvel já enjoa. A aluna foi transferida, o operador de câmara foi transferido e a professora ficou doente. Depois da divulgação na Net e nas televisões, já se andava a gritar por aí que as escolas do país estavam entregues à bicharada. Cá para mim, a televisão e o resto da comunicação social ajudam a estupidificar o povo que, sem qualquer ajuda, já não anda muito católico. Os sindicatos também dão a sua mãozinha e, quando falam do caso, até parece que foi a Ministra da Educação que mandou a aluna desatar aos berros feita histérica e malcriada.
Penso que devem ficar esclarecidos, de vez, alguns pontos ainda meio desfocados. Primeiro, aquela professora não representa os professores do país (era o que mais faltava); segundo, aquela aluna não representa os alunos do país (nem eles queriam); terceiro, a Escola Carolina Michaëlis não representa as escolas do país (estaríamos todos nos psiquiatras – pais e professores); quarto, os pais que educam aquela filha com tanto esmero não representam os pais do país (safa!).
Depois, é fundamental apurar as responsabilidades. Primeiro, a aluna não devia ter o telemóvel ligado na aula; segundo, a professora não deveria ter-lhe tirado o dito; terceiro, o puto que filmou não devia ter filmado; quarto, os outros alunos deveriam ter adoptado um comportamento diferente do de um bando de bestas quadradas, de baba aos cantos da boca, a gritar por sangue.
Ora bem, se a aluna tem 15 anos e poderia não atingir as consequências deste acto (é jovem, e tal…), já a professora, quase à beira da reforma, deveria ter tido um pouco mais de sangue-frio (mais juízo, em linguagem que se entenda) e jamais deveria ter-se permitido entrar em confronto físico com a rapariga. Se a aluna se recusava a entregar-lhe o aparelho, a professora só tinha de fazer uso do que a lei lhe permite: expulsar a aluna da sala, com marcação de falta e participação por escrito ao Director de Turma. Se a aluna se recusasse a sair, saía a professora alegando falta de condições para continuar o seu trabalho. Uma confusão de empurrões e agarranços, dá cá o telemóvel, não dou (num tom duas oitavas acima do dó central) foi a solução menos inteligente.
E quanto às transferências... Acho que houve ali uma precipitaçãozinha por parte dos órgãos directivos da Carolina Michaëlis. Na minha perspectiva, há sempre uns canteiros na escola que precisam de ser cuidados, salas que precisam de ser varridas, há sempre trabalho a fazer no bar, na cozinha ou na cantina. Serviço cívico durante um ou dois meses. Para as duas. Para a professora e para a aluna. As duas em perfeito trabalho de equipa. E o realizador de cinema? Esse ia fazer estágio para a TVI e seria obrigado a fazer filmagens das sessões do Parlamento durante o resto desta legislatura.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Ciúmes


Deixei de fumar vai para 13 anos. Tornei-me, de um dia para o outro, na inveja de muitos amigos fumadores inveterados que, por tudo e por nada, andavam de tocha acesa - porque estavam nervosos, porque estavam descontraídos, porque já tinham jantado, porque era a hora do café, porque ainda não tinham almoçado, porque lhe ofereceram, porque cravaram, porque sim. Eu também era assim. Era, mas já não sou. Vai para 13 anos.
E como consegui esta proeza que muitos tentam com toda a gana, acabando por claudicar nos primeiros dias? Deixei de fumar por ciúmes. Exactamente: por ci-ú-mes!
Leiam, então, atentos e de respiração suspensa (mas sem exagerar) o raciocínio que me levou a tomar uma das decisões mais importantes da minha vida: se os que fumam morrem mais cedo do que os que não fumam (as excepções não contam), então eu, que fumo que nem uma besta, arrisco-me seriamente a morrer muito antes da hora prevista (lá para os noventa e tal, segundo as minhas contas). Se eu sucumbir dentro de meia-dúzia de anos, vítima de uma das muitas doenças provocadas pelo tabaco, a minha fofa, que ainda é uma rapariga nova e bonita, acabará, quatro ou cinco breves lágrimas depois, por recasar. Tenho, pois, de adiar o mais possível a vinda desse tipo (que eu não conheço, mas que já odeio) cá para casa. Onde quer que eu estivesse, não iria aguentar.

(Não há fantasia mais perversa ou pensamento mais arrepiante do que imaginar um desconhecido - ou mesmo conhecido - sentado no meu sofá, a ler os livros que fui coleccionando ao longo de 40 anos, a folhear a minhas partituras, a ouvir os meus vinis ou a maltratar o meu velho piano, companheiro fiel de muitos momentos de introspecção.)

Distraídos crónicos...

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