quarta-feira, 19 de julho de 2017

Almansor agonizante




(Foto José Rasquinho)

Salvem o rio. É este o meu apelo aos autarcas que mandam e aos que hão-de vir a mandar.
Salvem o rio.
É um grito que tem eco nas memórias de todos os que não conseguem dispensar o Velho Almansor das suas vivências e dos seus olhares de gaiatos-marinheiros-pescadores-exploradores-nadadores sempre em liberdade. Hoje poderão encontrar-se outras funções nesta linha de água em vias de extinção. Temos técnicos com capacidade para nos devolverem este rio que foi dos nossos pais e avós e que é nosso por direito e herança. Haja vontade política e haverá sempre uma candidatura à espera de quem queira fazer daquele, hoje pobre caudal, um espaço de encontro entre a cidade e o seu passado feliz.

Salvem o rio.


João Luís Nabo

In O Montemorense, Julho 2017

terça-feira, 18 de julho de 2017

TNAs! TNAs! TNAs!





Antes de a rapaziada ir definitivamente de férias, renovo aqui a minha posição a favor dos TNAs (Trabalhos na Aula) em detrimento dos TPCs (Trabalhos para Casa). Porquê? Porque quando eu, professor, me preparo para, no remanso do lar, corrigir esses tais TPCs, nunca sei a quem atribuir a classificação: se ao aluno, se ao explicador, se à mãe ou ao pai ou se à extraordinária e sapientíssima Internet, ferramenta para todo e qualquer serviço quando a emergência é maior que o saber. Digamos que o melhor seria não atribuir nota nenhuma e fazer o que se fazia dantes: convidar o aluno a defender o seu trabalho na aula, sem a participação dos seus inúmeros e nem sempre credenciados mind coaches (treinadores da mente). Só assim mostraria o que vale. Ou o que não vale.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Importância de não ser Ernesto *




Escrever nas redes sociais sob anonimato com a intenção de denegrir a imagem, a vida, a integridade e o trabalho de outrem não pode ser merecedor do nosso desprezo. Tal como o meu saudoso Pai me dizia, não raras vezes, devemos cultivar alguma proximidade com os que não gostam de nós, porque os outros, esses, são de confiança. Por isso, não nos podemos dar ao luxo de desprezar as figurinhas que, nada fazendo por este concelho, destroem com prévia intenção, os que, após o voto do povo, podem ou não assumir cargos de peso no organograma autárquico. Mas o que é verdade é que a lista da CDU começa a ser atacada de forma ofensiva, demagógica e cobarde muito antes das autárquicas. E, pelo que conheço dos candidatos da Oposição, nenhum deles, tenho a certeza, concorda com esta forma de fazer política, condenando a atitude vil e o nível pobre de argumentação que por aí anda livremente a circular sobre um alegado futuro elemento da lista comunista. É por isso que, tal como o leitor, que é, tenho a certeza, um cidadão intelectualmente honesto, me recuso a acreditar em quem, no escuro da noite, não respeita quem poderá um dia ser-lhe útil. Se não for a si próprio, pessoalmente, será decerto à terra onde tais figurinhas absurdas tão estupidamente fazem, como os burros, sombra e peso no chão.


* Trocadilho com o título da famosa peça de Oscar Wilde The Importance of Being Earnest (estreada em 1895)


João Luís Nabo
In O Montemorense, Julho 2017

domingo, 16 de julho de 2017

A arte de bem descascar uma batata


Seis meses quase passaram desde o primeiro dia deste ano, fértil em tantas coisas e, a ver bem, em coisa nenhuma em especial. Não vou fazer o balancete deste período (para isso, há jornalistas credenciados), até porque seria logo alvo de propostas de alteração ou até de uma ou outra blasfémica ofensa por parte de um ou outro leitor menos bem disposto por causa deste calor que nos invade a paz de espírito. Por isso, esqueçamos o que passou e brindemos ao que há-de vir, às promessas eleitorais, às pinturas de muros e paredes, aos arranjos nas ruas e nos largos, às fotos da Oposição, muitas fotos da Oposição, com jogos do antes e do depois, e à vontade, muita vontade, por parte de toda a gente (acho eu) de tornar este Monte ainda Maior. Mas, para isso, é preciso arte, jeito e vontade genuína de ensinar e aprender com todos os envolvidos no processo. Cativar o eleitorado não é fácil e, como dizia alguém muito sábio, mais vale cair em graça do que ser-se engraçado. E, sobretudo, não ter medo de manifestar a sua opinião, ainda que, por tal, se torne alvo de epítetos que nada têm a ver com a essência daquilo que opina.

É por isso que a arte de bem descascar uma batata não é para todos. Retirar o invólucro a um tubérculo arredondado nas formas e liso na textura é fácil e todos o podem experienciar. Agora, retirar a casca a uma batata torta, sinuosa, produto de alguns espasmos da natureza, não se torna fácil, principalmente quando o cozinheiro só aprendeu, por diversas vias, e por deformação ideológica, a descascar batatas só de um determinado lote ou a utilizar, apenas e só, um determinado tipo de faca. É por isso que, quando alguém decide descascar aquela batata que ninguém ousara descascar antes, acaba por ficar sujeito a apreciações que, no mínimo, reflectem tanto a importância da sua ousadia como a incapacidade de discussão de temas difíceis e fracturantes por parte dos que vivem ainda a admirar ídolos de pés de barro.
Se o concelho merece a atenção de todos os que se envolvem político-partidariamente na luta legítima e genuína pelo poder, há que ouvir atentamente os que, não tendo qualquer filiação partidária, pretendem apresentar ideias, soluções, apontar caminhos para que todos, mesmo os que não aprenderam ainda a descascar a tal batata tão cheia de polémicas calosidades, mostrem, sem demagogia nem ligações a ideias feitas, a sua verdadeira paixão por Montemor. A sua paixão por todos nós.

João Luís Nabo

In O Montemorense, Julho de 2017



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Tu és revolução





Preciso de partilhar uma ideia que me anda a ocupar o pensamento há já algum tempo. Muitos falam do calor, das trovoadas, de sardinhadas felizes, de sangrias geladas a transbordar no copo, das redes sociais e de como as pessoas se expõem de forma inconsciente, sem medir as consequências das fotos e das palavras que publicam. Ainda que anacronicamente, pois não lembra a ninguém falar de uma coisa destas nesta altura do ano, é sobre o 25 de Abril que quero conversar com vocês. Sobre a Revolução que nos trouxe a liberdade de expressão e de pensamento e, com estas, todas as liberdades que hoje respiramos, assim que acordamos de manhã.
Foi em 1974, há 43 anos. Marcou a nossa vida, mudou o país e trouxe-nos dos maiores benefícios que jamais podíamos imaginar. Sabemos, porém, que nem todos estiveram ao lado da Revolução. Na altura, a maioria não quis perceber porquê. Mas o que é certo é que quem não era pela Revolução, era contra a Revolução e não lhe era dada qualquer oportunidade de defender o seu ponto de vista. Eram a chamada minoria silenciosa, os anti-liberdade.
Os que pouco ou nada tinham, os que ganhavam mal e passavam necessidades, os que iam implorar trabalho aos donos dos meios de produção, gritaram felizes quando se avizinhou uma manhã mais clara e transparente, ao som das vozes imortais de Zeca Afonso e de Paulo de Carvalho. Os que, através das leis que saíam em catadupa para que todo o país marchasse de forma igual e aplaudisse de forma igual a libertação das grilhetas, perderam propriedades e outros bens, em nome dessa Revolução, da igualdade e da fraternidade, não puderam estar de acordo com o processo utilizado nesse caminho de democratização do nosso sistema legal, social e político. Eu, no lugar deles, também não estaria. Se visse as minhas propriedades ocupadas, sem que me fosse permitida uma palavra, uma opção ou uma ideia, também não veria com os olhos da tolerância, não a Revolução, mas os efeitos que ela iria ter na minha vida, no meu património e na vida dos meus filhos e dos meus netos.
Temos de admitir sem medo nem vergonha: o 25 de Abril implantou-se, não apenas com os punhos no ar de quem exigia trabalho, salários justos e comida para os filhos, mas também com o silêncio e a resignação dos que viram desrespeitado o que era seu.
Hoje, o 25 de Abril teria tido outro rumo, creio. Com menos brechas na sociedade, com menos radicalismo, com mais tolerância de ambos os lados da barricada. Com menos feridas, ainda abertas após tantos anos. A insistência constante na sua memória parece-me, por vezes, redundante e, por isso, desnecessária. Quando passeio pela minha cidade, tenho a sensação de que se torna quase obrigatório, nos edifícios públicos, nos cartazes ou em qualquer manifestação político-partidária a que assistimos, gritar continuamente vivas ao 25 de Abril, ou inscrever laudas à Revolução, como se fôssemos uma Cuba Fidelista ou qualquer outro país socialista soviético da América do Sul, orientado anacronicamente pela cartilha marxista-leninista, cheio de dívidas eternas para com as revoluções que por lá vão acontecendo, para sempre penhorados a um grupo de homens que decidiram, e bem, mudar o rumo do país.
Obrigado, capitães de Abril. Quem viveu a Revolução nunca a esqueceu, e quem nasceu já neste terceiro milénio não precisa que lhe recordem uma coisa da qual não se lembram. É altura de sermos políticamente maduros e partidariamente saudáveis. Não precisamos de que, continuamente, nos obriguem, quatro décadas depois, a gritar vivas à Revolução. E não. O 25 de Abril não pode ficar refém de qualquer partido ou organização. Não pode ser o trunfo de uns contra outros. Ele é, afinal, de todos nós. Com tudo de bom e com tudo de mau que nos trouxe e há-de trazer.

E há uma verdade indesmentível e categórica: neste momento, somos nós que conduzimos a revolução, independentes e autónomos. Já não devemos nada a ninguém.

João Luís Nabo
In "O Montemorense", Junho de 2017

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Só para inglês ver



Começaram a mexer. Os políticos da terrinha já apresentaram os candidatos, estes, por sua vez, irão apresentar a sua equipa de trabalho para, depois, se submeterem ao escrutínio dos munícipes. Independentemente do vencedor, o importante é que Montemor saia a vencer. Que não se façam promessas agora para que o seu cumprimento seja atirado para as calendas gregas. Que não se prometa o que não se pode cumprir.
Há uma realidade incontornável e com ela me vou, de credo na boca, a pensar no meu votozinho: Montemor precisa de incentivos ao comércio e à indústria. Montemor precisa de mais incentivos ao comércio e à indústria. Montemor precisa de muito mais incentivos ao comércio e à indústria. Comunistas, Social-Democratas, Socialistas, Centristas, olhem para a vossa terra com olhos de ver. Criem. Proponham. Colaborem. Cooperem. Cumpram.
Respeitem-se.

João Luís Nabo, in "O Montemorense", 20 de Maio de 2017

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Eu acredito




Já se falou tudo o que havia a falar sobre o Papa Francisco e a sua vinda-relâmpago a Fátima, sobre o Salvador e a sua rápida ascensão ao estrelato por via da sua vitória no Eurofestival, e sobre o desempenho do Benfica após a conquista de quatro campeonatos nacionais in a row. Podemos dizer que regressámos a um passado não muito distante, em que o Estado também se curvava e beijava a mão à Igreja e em que o povo se deleitava com os fados de Amália e vibrava cegamente com o Futebol de Eusébio.
Há, contudo, que perceber a enorme distância, em termos de mentalidades, que vai entre o outrora e o agora. Outrora, Portugal abraçava Fátima, a Canção Nacional e o Futebol, porque a conjuntura socio-política o forçava a isso: não havia outras hipóteses de escolha. Agora, a caminho da terceira década do século XXI, podemos optar e optamos. Sem constrangimentos e sem medos. Se, por um lado, não somos iguais no pensamento e nas atitudes dos nossos antepassados dos anos 50 e 60, também os protagonistas da nossa História Actual são seres humanos diferentes, menos apertados pelo “sistema”, de espírito mais aberto e de olhar bastante mais lúcido.
Francisco é um homem inteligente, sensível e bom. Salvador é um jovem inteligente, sensível e “fora da caixa”, e o Futebol é, afinal, o nosso orgulho de campeões europeus. As pressões que estes “heróis” sofrem por parte dos seus admiradores, dos seus pares ou das hierarquias em que se encontram “encaixados” acabarão por servir tão somente de atenuante para algum erro que possam cometer enquanto vão caminhando por este cada vez mais interessante Passeio da Fama que é, e todos os sabemos, muito mais do que isso.
Entretanto, a auto-estima dos portugueses subiu em flecha. Através da religião, da música e do desporto, a grande maioria de nós já começou a pensar no lema de Barack Obama que o levou à presidência dos Estados Unidos, no já longínquo Janeiro de 2009 de boa memória: “Yes, we can!”. Sim, nós somos capazes. Por causa do Papa Francisco, do Salvador e do Rui Vitória, outros caminhos irão ser desbravados. Eu acredito.



João Luís Nabo, in "O Montemorense", 20 de Maio de 2017

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Portugal português





O actual sistema de ensino tem tentado levar alunos de 16 e 17 anos a ler alguns autores-chave da literatura portuguesa: Camões, Vieira, Garrett, Camilo, Pessoa, Eça, Saramago, Sttau Monteiro. O actual sistema de ensino quer que os alunos explorem as obras e os autores, de modo a ficarem preparados para os exames finais, onde os examinandos deverão espremer, em duas horas de intenso stress, o que conseguiram aprender desses escritores e das narrativas que os tornaram célebres.
O actual sistema de ensino não pode querer uma coisa impossível de querer. Para atingir esse desiderato da tutela, os alunos deveriam ser possuidores de profundos conhecimentos sobre a História, a Cultura (erudita e popular) a Política e a Religião do seu próprio país, porque foi este país que deu aos escritores em estudo o repositório de onde estes retiraram a matéria dos seus sonhos, para, depois, atirarem para o papel as suas melhores “invenções”.
E os alunos, pelo menos a grande maioria, reconhecem que lhes falta uma base cultural consistente para poderem dominar parte dos conceitos, das temáticas e de um sem-número de referências históricas explícitas, e não menos vezes implícitas, nos romances, nas peças de teatro e na poética desses porta-vozes da nossa vida e do nosso pensamento colectivo. Os estudantes do ensino secundário não devem olhar para um Eça, para um Pessoa ou para um Saramago como indivíduos distantes, estrangeiros e que só estão ali para lhes causar dores de cabeça. A eles e aos professores. Não. Esses e outros autores são tão portugueses como qualquer de nós e viveram no mesmo país que hoje procura, a todo o custo, conquistar uma nova perspectiva do Homem e do Mundo.
Assim, possuindo eles essas “ferramentas” estruturais, fortes e benfazejas, iriam tirar muito mais proveito das leituras que fazem, ou que fingem que fazem, e o próprio gesto de ler tornava-se, ele próprio, agora numa perspectiva de verdadeiros leitores com conhecimentos e pensamento crítico, num prazer maior, de verdadeiro diálogo transtemporal entre o aluno e o escritor.
E depois, não é só o Papa Francisco, o Salvador e o Éder que fazem vibrar multidões. Todos os autores dos programas de Português do Ensino Secundário foram uma pedra no sapato de alguém, uma pedrada no charco lamacento do sistema, seres humanos muito à frente do seu tempo.

João Luís Nabo, in "O Montemorense", Maio de 2017


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Tempo de Querer




Montemor vai, à imagem dos outros municípios portugueses, viver mais um ano de autárquicas. E, mais uma vez, os rituais da política vão cumprir-se com poucas ou nenhumas alterações. Ainda que saibamos como é difícil assumir e desempenhar cargos públicos desta dimensão, isso não nos coíbe de manifestar a nossa preocupação, quando pensamos na nossa cidade e no nosso concelho como património político, histórico, social, económico e religioso que queremos deixar aos nossos filhos e netos, isto se eles conseguirem emprego e casa por estas bandas. 

A leitura que faço de algum relaxamento visível na governação local terá por base não a incompetência nem a falta de conhecimento ou de honestidade dos políticos que nos governam desde há quase meio século. O que vislumbro, quando comparo os tempos actuais com outros bem mais interessantes, é, curiosamente, uma atitude com uma tripla face: por um lado, uma gestão que denota cansaço, desgaste e pouca emoção nas palavras e nas obras; por outro, a certeza confortável por parte da Maioria de que há, por enquanto, uma possiblidade, que se pode sempre questionar, de ganhar as próximas eleições sem muito esforço. Finalmente, o terceiro lado da moeda, o terem criado, ao longo de tantos anos, hábitos, rotinas, raciocínios que precisavam de ter evoluido, tal como tudo evolui, com penalizações para quem vai ficando pelo caminho. Isto para não falar na fidelidade que os autarcas mantém ao partido que os elegeu, sempre atento e implacável. 

E a Oposição? Fui sempre crítico em relação à forma como a Oposição faz política. A visão que tanto esta como a Maioria têm da cidade e do concelho tem sido, desde os idos anos 70, diferente, ainda que todos sejam montemorenses e que todos gostem da terra que governam. É esse passado e as mágoas que dele restam que não permite, ainda, uma plataforma de entendimento entre todos os que pretendem, de facto, pôr Montemor na senda do progresso e da prosperidade. 

Um dia, quando nenhum de nós estiver entre os vivos, os nossos netos e bisnetos vão perguntar-se por que motivo os obrigámos a percorrer uma estrada pedregosa, cheia de perigos, sem luz, em direcção ao deserto...


João Luís Nabo
In "O Montemorense", 20 de Abril de 2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

O Tempo da Paz


O tempo da Páscoa será o mais dramático e, paradoxalmente, o maior motivo da alegria dos cristãos. A Morte perde o seu sentido mais literal e adquire uma nova dimensão, quando Cristo, crucificado e morto segundo a lei daquele tempo, renasce, inteiro e poderoso, ainda que de forma inexplicável para quem abandonou a fé a favor de um espírito mais científico, focado na lógica e na razão. O que se pretende sublinhar nesta pequena reflexão não é a defesa de quem acredita, muito menos o aplauso aos que se dizem ateus ou mesmo agnósticos. Porque a mensagem fulcral que, desde sempre, me tem enfeitiçado não é a Ressurreição tal como os crentes a assumem. 
O exemplo que retiro deste tempo é a imagem de um Cristo Extraordinário que, renascido, mantém de forma coerente o pensamento e as acções que o tinham transformado num fora-da-lei. Mais do que um regresso à Vida, é um regresso de olhar sereno e espírito tranquilo, é um voltar sem desejos de vingança, de desforra ou de reparação. 
Cristo reaparece pacífico, apaziguador, de mão estendida aos que o mataram. Fora perseguido porque se afirmava diferente. Fora condenado por revelar-se consciente das glórias e misérias do mundo. Fora crucificado por manifestar publicamente a sua defesa pelos mais fracos e a sua tolerância para com os que não pensavam como Ele. Mesmo assim, regressou em paz. 
É esta, para mim, a grande força da Páscoa.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Abril de 2017

terça-feira, 21 de março de 2017

Alface e a fineza dos livros


       


          Também não entendo por que motivo os alunos andam a transportar diariamente vários quilos de livros para a escola, se alguns deles nem sequer chegam a ser abertos no decorrer das aulas. Gastam-se centenas de euros (eu cheguei a despender, cada Setembro, 600 euros em livros e em materiais escolares no tempo em que os meus três filhos eram alunos) para transformar as crianças em carregadoras de saberes profundos sem, por vezes, fazerem ideia do que andam a transportar. O problema é que não é responsabilidade das escolas e dos professores dar a volta à questão. Há interesses extraordinários metidos na coisa que continuarão a fazer com que as editoras e o ministério, os autores de manuais e as editoras, o ministério e os autores de manuais queiram manter esta estrutura que vai acabar por esgotar as já parcas bolsas da maioria dos pais que, ainda por cima, estão assim a colaborar para que os filhos possam vir a ter problemas de saúde ao nível da coluna vertebral… que é onde assenta o crânio (que tem dentro um cérebro.)
           Alface, pela espessura dos livros que nos deixou, havia de concordar comigo. Tamanho não é sinónimo de qualidade e este escritor montemorense, falecido há 10 anos e homenageado no passado dia 8 de Março nos Paços do Concelho da sua terra, conseguiu provar com os seus textos narrativos que basta uma única frase, escrita com saber e inteligência, como só ele sabia, para pesar mais do que os cinco ou seis manuais escolares que os miúdos levam hoje, diariamente, para a escola.
      Tenho a certeza de que para este escultor da palavra, mordaz, satírico, contundente e literariamente livre, bastaria uma leve sebenta, dobrada ao meio e enfiada no bolso de trás das calças para poder ser o mais sábio dos alunos e ser hoje o mais descontraído dos mestres.  

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Março de 2017

quinta-feira, 16 de março de 2017

TPCs? Nem sempre, obrigado








Todos os meses são bons para discutir o tema que se tem avolumado em cima das secretárias dos professores e sobre as mesas de trabalho na casa de cada aluno. Os trabalhos de casa andam na ordem do dia. Se concordo com os tão célebres e badalados TPC’s? Concordaria se prevalecesse o bom senso e houvesse uma articulação entre os docentes, de modo a não prolongarem os longos dias que os alunos passam na escola em mais duas, três ou quatro horas de ocupação intelectual, em casa, envolvendo pais, tios, avós e explicadores. 

É por isso que eu, no exercício da minha profissão, muito raramente (quase nunca) mando trabalhos para casa. Porquê? Porque os alunos têm de gozar momentos de pausa e descontracção, quer sozinhos, quer com os amigos e com a família e porque nunca sei quem é que vou ter de avaliar nestas circunstâncias: se o aluno, se o pai, se a mãe, se ambos, se a avó ou até mesmo se o primo afastado, poeta de longo curso, acabadinho de regressar de Espanha, depois de umas férias merecidas em Benidorm.

João Luís Nabo  (In "O Montemorense", Março de 2017)

quarta-feira, 15 de março de 2017

Ai, Março, Março!




          O mês de Março é, aparentemente, um mês morto. É assim uma espécie de “toma lá calma e não te enerves, que isto há-de passar”, um mês de fazer favor que nos deixa mergulhados numa espera e num ansiar por outros dias com mais luz. Março, outrora dedicado ao deus romano da guerra e da agricultura, é hoje apenas o terceiro mês deste calendário que nos obriga a um intervalo entre a noite e o dia, entre a sombra e a luz, que nos arrasta nestas horas que não são invernosas nem primaveris, num limbo demasiado longo onde as almas aguardam, nem sempre serenamente, a libertação.
Essa virá com os dias que se avizinham, uns de Paixão e Morte, outros de Ressurreição e Esperança, outros sem coisa nenhuma que se pareça, mas, ainda assim, cumpridores do calendário dos homens e da natureza. Poupa-se luz, poupa-se gás, poupa-se a alma e o pensamento e os psiquiatras ficam mais libertos para irem à pesca. É por isso que gosto muito mais do que vem depois.


João Luís Nabo
In "O Montemorense", Março, 2017

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Celebrações II




Cada um de nós vai tendo, com o decorrer dos anos, dias certos de celebração ou de saudade. Cada um saberá dos seus e conhecerá a melhor forma de invocar memórias e de elevar um pouco mais o pensamento em direcção a um espaço que não se descreve e que se situa exactamente dentro de nós. Recordar amores passados, com um sorriso nostálgico mas não saudosista; pensar nos que partiram antes de nós, gravando no nosso ADN o Dia e a Hora da despedida; recuperar, com sofreguidão, os verões da nossa juventude, onde tudo era simples, claro e natural; recuar até à infância, lugar eterno onde os nossos pais nunca envelheciam e os nossos avós ficavam cristalizados nas nossas carícias e nos nossos abraços.
Acreditar, enfim, que as celebrações mais importantes não são as que dão lucro ou as que nos permitem ostentar materialmente o nosso poder perante o nosso semelhante. E há tantas, a maioria “decretadas” pelo Estado ou pela(s) Igreja(s)… Contudo, as intocáveis, as incorruptíveis, as mais sagradas são as nossas, as que não partilhamos abertamente porque impossíveis de exibir, as que nos permitem ficar, recatadamente, um pouco mais próximos do verdadeiro sentido da existência. Porque todos temos um passado. E porque ninguém é uma ilha.

João Luís Nabo

In "O Montemorense", Fevereiro de 2017

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Valentim


Começo estes rabiscos exactamente à meia-noite e um minuto do dia 14 de Fevereiro. E nem por um segundo senti qualquer diferença. Dizem que é o Dia dos Namorados. Nada contra. Nem contra este dia nem contra todos os outros que se celebram, uns a propósito, outros a esmo, sem fundamento nem mais-valias. Mas é bonito fazer-se uma festa, seja por que motivo for.
O que me aborrece com esta e outras celebrações é que muitas entram em campos tão vastos que nós nunca sabemos se devemos ou não celebrar aquilo que alguém nos “obriga” a celebrar. Não sei se todos os casais de namorados vão celebrar este dia da mesma maneira: com flores, bombons, beijinhos e um jantar diferente, protegido que está o seu amor por São Valentim, que recordam à luz de uma vela para a ocasião. Ou se alguns desses casais preferem comemorar a sua relação de forma coerente, com mais uns empurrões, umas bofetadas e uns nomes menos românticos à mistura, tal como fazem no decorrer do resto do ano.
Seria bom acabar com esta comemoração? Não. Isso seria afundar negócios de milhões um pouco por todo o mundo, criando ainda mais desemprego e instabilidade. O ideal é que não fosse preciso um dia para comemorarmos o que nos move todos os dias – o amor.

In "O Montemorense", Fevereiro de 2017


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A trave e o argueiro


Os anos começam bem para uns e mal para outros. Ainda no tempo das cavernas, altura em que S. Gregório não tinha nascido, os homens e as mulheres não tinham a mesma noção de tempo do que nós, mas também teriam dias melhores e dias piores. Com mais caça ou menos caça. Com melhores ou piores colheitas. Com vidas conjugais calmas ou agitadas. Com mais guerrilhas ou menos guerrilhas pela posse das terras e de alguma gruta assim tipo T5.  Nada mudou, apesar de tudo. Esses tempos eram, também eles, injustos.
2017 é agora mais um momento (breve, muito breve) que se quer sempre renovado, melhorado e, sobretudo, justo. Mas sabemos que não é assim. A vida, desde o tal tempo dos nossos pré-históricos avós, continua a não ser sempre justa e nem sempre temos aquilo que merecemos. No entanto, “navegar é preciso”, como dizia o poeta, e todos, quer tenham fé num Deus, em vários, em nenhum ou apenas em si próprios, têm o direito a uma vida digna e sem sobressaltos. Para isso, basta, às vezes e apenas, que o outro seja respeitado nas suas opções, nas suas diferenças, nas suas limitações ou nas suas capacidades. A nossa maior limitação é, de facto, não vermos como todos, de uma forma ou de outra, somos, tantas vezes, tão limitados.
Citando um autor famoso chamado Mateus, São Mateus, que eu leio de vez em quando, “Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho, e então verás claramente para tirar o argueiro do olho do teu irmão.” (7:5)

Bom Ano Novo.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Janeiro de 2017

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Sejamos Sábios



           É o tema do momento. Incontornável e motivo de comentários, favoráveis na sua grande maioria, que demonstram que ainda existe em nós o velho bairrismo que parecia estar a desvanecer-se aos poucos. Montemor, que eu escolhi para palco das minhas histórias em livro, mas com o nome de Vila Nova, já merecia ser o cenário de uma produção como “O Sábio”, a novela a passar presentemente na RTP1.
Embora sensível à função estética de qualquer obra de arte ou performativa, não terei conhecimentos suficientes para analisar a questão em termos técnicos ou artísticos, e não foram essas as questões que motivaram este texto. No entanto, não fiquei insensível nem ao genérico da novela, nem aos exteriores, centrados em magníficas imagens do Castelo, da Cidade e de outros pontos conhecidos (Barragem dos Minutos, Herdade da Comenda do Coelho, Cromeleque dos Almendres) que nos deixam sempre com um aperto na garganta.
Mas não é esse o maior gozo de todos: o maior gozo de todos é quando ouço as personagens a falarem de Montemor como se fossem mesmo de cá, como se estivessem, tal como nós, profundamente apaixonados (ou não) por todos os encantos desta terra. É, muitas vezes, esta magia que a literatura e o cinema têm que é o de poderem misturar a realidade com a ficção, ficando nós, quantas vezes, sem sabermos onde começa uma e acaba a outra. E, na nossa imaginação, sempre a mil, ainda pensamos ser possível darmos de caras com o recém-regressado Pedro Homem, com o bondoso Tio Jacinto, a Sofia, confusa e à procura do seu rumo, ou o Raúl e a Cremilde da sede dos pescadores.

Então, há que aproveitar esta oportunidade, única e sem precedentes, de termos Montemor-o-Novo a ser visto quase diariamente no mundo inteiro. Torna-se urgente tirar partido da força e do poder da televisão e, agarrados a esta obra de ficção, procurar atrair gente à cidade e ao concelho, porque precisamos de mais movimento, de mais gente, de mais turistas, de mais habitantes, de mais capital, de mais compras e de mais vendas.
Por isso, quero ter a certeza de que, muito em breve, o executivo camarário vai iniciar (se não o fez já) uma série de acções estratégicas, concertadas não só com as agências de viagens, companhias turísticas, marcas de produtos e serviços, entre outros eventuais interessados, mas também, e sobretudo, com empresas, restaurantes, pastelarias, hotéis, pensões, associações culturais e desportivas da cidade e do concelho. Podemos deixar de ser um local de passagem para nos transformarmos num espaço que, dado a conhecer pela caixa mágica, se transformará num polo atractivo, com muita gente a querer passar por cá e visitar as maravilhas que nós cá temos e que tantos e tantos desconhecem. E quem vem demora-se, come, dorme, faz compras. E pode até decidir cá viver. Não podemos ter medo de quem nos pode dar a mão em termos económicos e humanos. Não podemos fechar Montemor ao mundo. Aproveitemos a oportunidade. É agora ou nunca.
Obrigado RTP. Obrigado Câmara Municipal. Obrigado Rui Chapa. Sem ti, o protagonista teria morrido e a novela não teria qualquer sentido.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Janeiro de 2017

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Ainda a Sogra, querida e eterna




Deixei num dos meus espaços das redes sociais um agradecimento a todos os amigos que nos abraçaram, directa ou indirectamente, pelo falecimento da nossa Mãe, Sogra e Avó, Nita Casadinho, e aproveito também este espaço de liberdade, que me foi oferecido pelo meu amigo Padre Manuel Vieira, vai para uma quinzena de anos, para reescrever o texto que por lá vai ficar mas que se colará para sempre na garganta e no coração de quem sabe amar e respeitar os conceitos e as práticas da família, do respeito e da amizade. É provável que, neste texto que agora inicio, haja uns acrescentos, porque quando escrevemos num dia nunca somos os mesmos quando o fazemos uns dias depois...
As nossas Mães, quando partem, nunca chegam a partir. Há-de haver sempre uma ligação que permanece ao longo de todos os tempos até ao último segundo das nossas vidas. Nascemos delas, estivemos com elas mais tempo, fomos delas mais horas, mais dias, mais meses. Somos sempre os seus meninos, porque, para os nossos Pais, a partir dos 10 anos, já teremos de ser uns homenzinhos... Pois, a nossa Mãe, Sogra, Avó e Amiga despediu-se no Sábado, com a família à sua volta, e todos sentimos, muito secretamente, que o fim estava próximo. E vocês sabem o que isso é: sentir que já não há solução e que nos resta enganarmo-nos a nós próprios e enganar os outros que estão connosco, à espera do suspiro final.

Sentimos que a nossa Mãe Nita, com uma vida cheia de filhos e netos (e uma bisneta quase a nascer) ia partir com alegrias no coração e com mágoas que nunca mais ninguém poderia curar. Mas a nossa Mãe ficou, sobretudo, a saber que o amor que por ela sentimos, e continuaremos a sentir, é maior do que qualquer mágoa, é mais forte do que qualquer dos vendavais que lhe sobressaltaram os dias, mais terno do que todas as nuvens de algodão em tempo de Verão e de dias de Sol brilhante.
Ela foi, nos últimos meses, depois da partida de todos os outros nossos Pais, o nosso ponto de referência, a nossa “matriarca”, a nossa “chefe”, o nosso único Sol e o Sol dos filhos e dos netos que nunca deixaram de a amar, que nunca a abandonaram, dos amigos dos seus netos que lhe chamavam também avó Nita e também da vizinha Maria, uma irmã, uma enfermeira, uma amiga para quem não temos palavras suficientemente fortes que expressem o agradecimento que ela merece. A nossa vizinha Maria, e eu sei que ela acredita nesse destino, tem o Céu à sua espera.
Por outro lado, a Nita sabe que, enquanto o último de nós por cá andar, o seu nome, a sua memória e a memória do seu querido Valério continuarão vivos e eternos na história da nossa família e nas histórias de todos os amigos, e foram muitos, mas muitos, a quem eles fizeram bem. E vão todos eles, os quatro e o avô Tony, a continuar nos nossos almoços de família e a serem recordados com saudade nos seus aniversários e nos aniversários de todos nós.

Há, no entanto, algumas pessoas que, pela sua formação, continuam a preferir criar abismos em vez de pontes, escavar valas profundas e quase intransponíveis em vez de estradas direitas onde todos pudéssemos caminhar lado a lado, com as nossas diferenças, mas com os pontos comuns que ainda nos ligam. Todos nós vivemos este tipo de experiências, porque não há famílias perfeitas. Todos sentimos que o Mal e o Bem residem mesmo ao lado um do outro mas que, como forças eternamente antagónicas e irreconciliáveis, afastam qualquer possibilidade de diálogo e atiram para cada vez mais longe a solução do que poderia ser solucionável.

Ninguém foge ao que a vida lhes vai, aos poucos, preparando. Melhor: todos se deitarão na cama que fizerem e só a eles lhes poderá ser pedida a responsabilidade dos seus actos. Os santos estão nos altares e alguns, provavelmente, com uma boa parte da sua santidade aberta à discussão, mas nós, os humanos, nós não somos santos. Por isso, desconheço as minhas penalizações e as minhas recompensas quando um dia, como a Nita, partir para sempre. Não sei quem irei encontrar no outro lado da vida, nem estou muito interessado, por agora. Sei, no entanto, que o poeta, já preocupado com as atitudes, tantas vezes incompreensíveis dos mais velhos, desabafou numa frase, aparentemente inocente:

“Que quem já é pecador
Sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…”

Não há bons nem maus nesta vida. Há gente que vive de acordo com as circunstâncias, lidando com a própria dor, com a incapacidade intelectual de procurar soluções para o bem estar dos que lhes estão mais próximos, ao mesmo tempo que fomentam a divisão e a violência, gozando, aparentemente felizes, do alto da sua importância o sofrimento que vão causando. Como dizia tantas vezes a minha Mãe, saudosa e muito amiga da sua comadre Nita: “Há mais marés que marinheiros e, acredite, comadre, este género de pessoas, se não lhes dão a mão, acabarão sozinhas, desprezadas e inúteis para sempre.”

Hoje, o Valério e a Nita já se reencontraram. Queremos acreditar assim, para que tudo se torne menos doloroso e mais pacífico. Por isso, acreditamos que já se encontraram, já se beijaram e já deram as mãos para todo o sempre. E cremos que as dores, todas as dores, ficaram por cá, para que sejamos nós, agora, a suportá-las por eles, depois do seu merecido descanso.
Acreditamos também que o tempo tudo cura, tudo muda, tudo mata, tudo leva e tudo recupera.

Feliz Natal a todos os que leram este texto, a todos os que não o leram e a todos os que fingiram que não o leram.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Dezembro de 2016


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Pose de Estado



Sim, ando pelo Facebook para escrever o que me parece que devo, para provocar discussões, para dar recados, para abraçar amigos e para despachar os que pensam que o são mas não o são. Mas isso sou eu, que não tenho qualquer responsabilidade política na minha cidade e no meu concelho. Porque se eu tivesse responsabilidade política na minha cidade e no meu concelho, não utilizava o Facebook para defender posições que, decerto, deveriam ser defendidas em sede própria, nem para divulgar questões de teor pessoal sobre a família e os amigos, provocando, tantas vezes, momentos de constrangimento a quem lê, muito menos para questionar adversários políticos sem que eles possam reagir num ambiente franco e transparente, como se pretende que sejam os ambientes de troca de ideias, ou até para acusar e defender a esmo pessoas e ideologias, sem medir as consequências políticas de tais desabafos. Se eu tivesse essas responsabilidades políticas, não usaria esse veículo como jornalinho pessoal, para espalhar intrigas, escarafunchar questiúnculas, reabrir feridas, espalhar desamores como se eu fosse um cidadão comum, iguais aos demais, sem responsabilidades políticas na minha cidade e no meu concelho.
Se há uma questão que alguns políticos da nossa cidade ainda não entenderam, após tantos anos de democracia e de governação livre, é a necessidade de uma atitude de estado. E parece-me que, com os exemplos dados todos os dias pelo actual Presidente da República, não é tão cedo que o vão entender.
À vontade não é à vontadinha e mais vale cair em graça do que ser engraçado, já me dizia o meu velho e saudoso Pai, sempre atento e amigo,


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2016

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Trumpstein




O povo americano já não nos pode surpreender mais. Quem deixa de torturar e matar negros para os transformar em presidentes da sua grande nação pode, muito bem e sem qualquer justificação, agarrar num indivíduo carregado de defeitos e sentá-lo na Sala Oval, porque o acha merecedor de tal distinção e responsabilidade.
A linha que a sociedade nos manda traçar para dividirmos o Bem do Mal, anulando assim, inequivocamente, a possibilidade de ambos se misturarem, nunca foi clara na sociedade americana. A sua literatura, ainda que herdeira de fortes influências europeias, mostra-nos, e aqui sim, claramente, que o espaço americano, pela sua amplitude e diversidade, pode permitir tanto a um habitante de Nova Inglaterra ou de Massachusetts, com um passado histórico de caça às bruxas (literalmente), como a um cidadão, distante e isolado, dos estados do Nebrasca ou do Arcansas, de espírito livre e mais ligado à natureza, mas não impeditivo de atitudes-limite, a vivência de duplicidades que só se tornam compreensíveis se as entendermos à luz de comportamentos borderline, comummente generalizados como esquizofrénicos ou bipolares.
Donald Trump lembra-nos precisamente algumas personagens com estes atributos, saídas de romances de Bret Easton Ellis – vítimas de um novo-riquismo que lhes permite os excessos e que, ao mesmo tempo, as atira para um espaço onde a mitomania (a capacidade de acreditar nas suas próprias mentiras e nos seus projectos megalómanos) as torna ainda mais assustadoras aos olhos dos outros – ou de Edgar Allan Poe, onde a luta constante com a sua própria consciência as transforma em seres alienados e capazes de qualquer loucura contra eles próprios ou contra os outros.
O novo presidente da nação mais poderosa do mundo, diz-se, apresentou-se como um indivíduo contra o status quo. Contudo, e paradoxalmente, as suas atitudes, palavras e maquinações acabam por roçar o ridículo pela incredulidade que provocam nos que o escutam. Por outro lado, esses terríveis planos de Trump levam-nos a pensar que é urgente que um qualquer super-herói esteja alerta, na tradição dos mais competentes vigilantes da Marvel, pronto para entrar em acção, de modo a impedir a concretização de tais ideias. Estas parecem vindas de um verdadeiro ditador dos tempos da Segunda Grande Guerra ou de um general alucinado, que tenha passado a maior parte da vida escondido, na clandestinidade, com os seus guerrilheiros numa floresta esconsa da América do Sul.
Se Trump leu Ellis, Poe ou mesmo Hawthorne, terá decerto encontrado traços comuns entre si próprio e as conflituosas e sofredoras personagens destes génios americanos. No entanto, se o novo chefe do mundo se atrever a ler um certo e muito célebre romance da literatura gótica inglesa, poderá concluir que ele próprio, no calor dos seus discursos e nas contradições constantes da sua vida, poderá não passar de uma criatura construída por si próprio e pelos media, com pedaços de vivências de si e de outros que o tornam num todo misto, grotesco e vivendo numa insuportável e angustiante ausência de paz.
Afinal, a Criatura de Victor Frankenstein só precisava de um pouco de compreensão e carinho. Tal como Mary Shelley, sua virtuosa e verdadeira criadora.


João Luís Nabo

In "O Montemorense", Novembro de 2016

Distraídos crónicos...

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